sábado, junho 20, 2009

Short Story - Paixão na Biblioteca

Era uma acalorada tarde de Verão. No ar, a única brisa, que se fazia sentir, era mais quente que o ar que expirava. Sentia os quarenta graus Celsius nos ombros como um escravo absorve cada chicoteada do seu amo. Aquando de mais uma investida por sombra, que no fundo me levava a percorrer todas as tascas e tasquinhas da cidade numa cambaleante indisposição, dei por mim às portas da biblioteca cá do sitio. Decidi entrar e deliciar-me com a modernidade e frescura proveniente das caixas brancas existentes por cima de algumas janelas. Creio que lhes chamam "Ar Condicionado", e diga-se de passagem que é uma coisa bem esgalhada. Encostei-me a uma janela e mirei o horizonte como que perscrutando por aquele inimigo que não se deixa ver... esperei. Limpei as gotas de suor que me desciam eminentemente pelo rosto enquanto a caixa branca vomitava frescura sobre a minha cabeça. Lá fora, silhuetas ténues dançavam à luz, criando a ilusão de coisas que realmente não estavam lá... ou estariam? Olhei o relógio e ponderei a permanência neste oásis de calma e frescura por mais uns momentos e porque não, aproveitar para por a leitura em dia. Afinal, não me lembrava da última vez que havia posto a vista sobre um livro. Já nem me lembrava do que continham... letras e imagens presumo, que para mim recordavam hieróglifos de tão distantes que agora estavam. Decidi mergulhar numa leitura reconciliante. Percorri vagarosamente os corredores da biblioteca em busca de algo que me saltasse à vista... não que os livros saltem, mas creio que compreendem o que quero dizer. Biologia, História, Geociências... cada secção, apesar de interessante, parecia menos acolhedora que a outra. Jornais? Nah... Diário da Republica? Nem pensar!

Percorria a parte das enciclopédias quando os nossos olhos se cruzaram pela primeira vez por entre o espaço entalado entre os livros e a estante de cima. Eu, taralhoco de calor em busca da iluminação lírica e ela, calma e serena a vasculhar os livros com a graciosidade de quem sabe onde encontrar tudo. Desviei o olhar por segundos... não a queria incomodar, mas a sua presença inquietava-me ao ponto de converter as minhas íris em magnetos que procuravam os elementos férricos do seu corpo. Ela era esguia mas de curvas acentuadas, tinha olhos negros como antracite sensualmente contrastantes com a palidez de uma pele que raramente partilhara o mesmo espaço com raios de sol. Deslizava elegantemente com as suas vestes de seda, percorrendo todos os livros com uma paz que parecia ser só dela. Olhou uma última vez para mim e desapareceu atrás do XII Volume da Enciclopédia Larousse. O meu relógio marcava as cinco horas da tarde e o sol rebelava com uma nuvem no distante céu. "Boa hora para ir para casa" pensei para comigo. Ao sair, vasculhei a biblioteca para ver se a encontrava... sabia que estava ali algures, mas simplesmente já não a conseguia ver.

No dia seguinte, decidi voltar à biblioteca. Não sentia a atracção pelos livros... era ela que me chamava para lá. Era manhã cedo e fui presenteado pelo aroma a jornais frescos assim que ultrapassei as portas giratórias. Procurei-a como um louco... secção a secção... no rés-do-chão e depois no primeiro andar. Cabisbaixo por não a ver em lado algum, decidi dar uma leitura pelas noticias do dia. Sempre achei muita fruta, de todas as pessoas que partilham o mesmo espaço com ela, apenas eu lhe ter chamado a atenção... Que burro ter perdido este tempo com sonhos totalmente irrealistas. Afinal, numa cidade com milhões de almas, qual a probabilidade de a tornar a ver? Mergulhei na crise económica e nos ensaios nucleares da Coreia do Norte e deixei o tempo passar. Aqui e ali, levantava a cabeça e batia os corredores na vã esperança de que o brilho dos seus olhos me guiasse como um farol. Ao meio-dia fui almoçar e entornei umas quantas garrafas de cerveja para o meu interior. Tornara a estar uma tarde desagradável com temperaturas extenuantes. Deambulei por umas quantas esplanadas e outros abrigos... analisando o conteúdo alcoólico de muitas outras garrafas de cerveja, enquanto procurava uma explicação plausível para uma tamanha pancada... uma paixão na biblioteca. Já tinha tido pancadas, é verdade... daquelas que nos roubam o pensamento e deixam-nos a ver um frame do mesmo filme durante horas e horas, tal moldura digital com erro de programação. O cedo virou tarde e o tarde virou noite... ligeiramente alcoolizado, decidi voltar para casa. Sentia amargura na boca, mas creio que foi dos pimentos que acompanharam a sardinha.

Manhã cedo, um novo dia e uma dor de cabeça de proporções homéricas percorria todos os lóbulos do meu cérebro. Aliás, creio que cérebro é uma descrição um tanto ou quanto megalómana para o aglomerado de células mirradas que se encontrava dentro da minha caixa encefálica nessa manhã. Vesti-me, tomei um forte café com a torrada da manhã e bebi meia garrafa de litro e meio de água só para revitalizar um pouco. Sentia-me grogue... do álcool e de curiosidade. Queria ver aquela criatura mais uma vez... só mais uma. Sentia-me um agarrado a uma qualquer droga. Tinha a necessidade de estar ao pé dela, mesmo que fosse apenas para me perder por uma fracção de segundo nos seus olhos. Odiava-me por ser mais forte do que eu, mas poderia dizer que de uma certa forma, nomeadamente em visitas a bibliotecas, ela já havia mudado a minha vida. Creio que me senti como Yuri Gagarine quando chegou ao espaço... grande e ao mesmo tempo pequeno. Corri para a biblioteca com determinação... o sangue dos Hunos corria-me pelas veias e apenas a visão dela, tamanha vitória, me poderia acalmar. Percorri os corredores tão tresloucadamente que eventualmente me perguntaram se poderia fazer menos barulho. De que me interessavam os exames de aferição... ou os exames nacionais. "Restrinjam-se à vossa vida insignificante, suas vis criaturas!" temo ter gritado a certa altura. Tremia... mas não era das caixas brancas estarem a debitar mais frescura do que o meu corpo poderia aguentar... não! Era nervos que me percorriam o corpo... sentia-me ressacado e desanimado por não a encontrar novamente. Respirei fundo. Aliás, não me lembro de ter inalado tanto ar em tão pouco tempo, durante toda a minha vida, e posteriormente a consequente libertação do mesmo, que diga-se de passagem que foi equitativamente grande.

Fechei os olhos e esperei por um sinal... um farol no pensamento que me guiasse até ela. Senti o ar... senti toda aquela amalgama de livros tornarem-se nada e vi-a finalmente. Lá estava ela, esplendorosa como no dia em que primeiramente a vi. Abri os olhos e dirigi-me para a secção de desporto. Com uma paz só dela, percorria os livros até achar um que lhe chamasse a atenção e perdia-se nele por uns momentos. Depois, emergia das suas páginas e voltava a bater os livros todos à procura de mais um ou outro artigo que lhe interessasse. Olhei-a durante horas... sorrateiramente, ora fingindo que estava a escolher um livro, ora lendo uma revista na diagonal. Por vezes desaparecia do meu campo de visão e via-me obrigado a mudar de mesa, escolher outro livro ou simplesmente passar por ela para a secção seguinte, tentando providenciar um eventual encontro.

Seguiram-se dias nisto... acabei por conhecer os seus hábitos. Todos os dias voltava e cada vez era mais fácil saber onde ela iria estar... qual o corredor... qual a secção... quais os livros que iria percorrer até parar, embrenhar-se um pouco e seguir caminho. Descobri que a sua vida se resumia à biblioteca. No fundo, era uma autodidacta com requintados gostos. Preferia os livros antigos aos novos... maioritariamente pelo aroma doce que brota das suas páginas amarelecidas pelo tempo; chegava a, poderei dizer, devorar dois a três bons artigos por dia, grande parte na área das ciências exactas, com as quais tinha grande empatia. Achava as revistas um tanto ou quanto sem sabor, rejeitando as suas páginas impregnadas em tinta, mas não fugia a um bom jornal do século XIX. Os seus olhos olhavam os livros com o mesmo brilho com que um estudante universitário olha para um mega Big Tasty com Coca-Cola e milhões de batatas fritas no dia seguinte à noite de Quim Barreiros na Queima das Fitas. Sim, esse brilho de salvação pela gordura, sal e cafeína que apenas certas coisas nos conseguem dar. Eu olhava para ela da mesma maneira, não que a quisesse comer ou algo assim, mas com alegria no olhar. Na verdade, nunca me aproximei muito dela, não queria perturbar o seu destino. Mas, de certa forma, o seu olhar dava-me a entender que ela tolerava a minha presença... que eu era aquela pessoa na biblioteca que finge ler e finge vasculhar nos livros apenas para poder estar ao pé dela mais um bocadinho. Sentia-me feliz. O Verão passou... depois veio o Outono e eventualmente o Inverno... Mantivemos-nos cúmplices de olhares e de um ou outro livro rasgado na pressa de o recolocar na prateleira. Os dias correram tal como eu corria para a biblioteca todos os dias. E que bons foram esses dias.

Por fim chegou aquele fatídico dia... Estava um frio acutilante e tentava organizar os meus pensamentos enquanto me encaminhava para a biblioteca sem perder nenhuma parte dos meus membros pelo caminho. Ela tinha estado estranha nos dias anteriores... como se soubesse que o frio e o gelo estavam para chegar. Parecia mais distante, de qualquer das formas feliz, mas olhava-me com aquele ar de quem tem de ir embora e não tem tempo para dizer "até já", "até logo" ou até mesmo "adeus". Tremia... não das caixas brancas que nesta altura regurgitavam calor, nem do frio que me havia enregelado partes do corpo que eu nunca sonhara que pudessem ficar enregeladas... tremia com medo de não a tornar a ver, de ler nos seus olhos um distante "desculpa". Via pela última vez nessa manhã... à tarde voltei lá mas não a consegui encontrar. Fiquei desolado. Transformei as minhas manhã de Inverno numa procissão. Levantava-me, comia algo, agasalhava-me, enfrentava os dez graus negativos do caminho, vasculhava a biblioteca de uma ponta à outra e voltava resignado para casa. Creio que foi o Inverno mais triste de que me lembro... bem, talvez não tão triste como aquele ano em que no Natal pedi um computador e um carro telecomandado e acabei por receber três packs de três pares de meias das raquetes, duas camisolas interiores de aquecimento e uns boxers de seda com smiles amarelos no rabo... mas considero-o o mais triste de qualquer das formas.

Chegara o equinócio de Março... dia vinte para ser mais preciso. Acordara normalmente... ok, talvez um pouco batido da noite anterior, mas não deixei de acordar normalmente (não levei com um balde de água, nem com pessoal aos saltos na cama, logo considero normal). Abri a janela do quarto para deixar o etanol sair e o agradável aroma a tubos de escape e flores primaverís entrar. Olhei o Mundo com aquele ar esgazeado de quem deve horas de sono à cama, necessita de um café bem forte e uma dose redobrada de almoço. Tomei um banho para acordar, vesti-me e algures na TV passou uma daquelas notícias de "O Inverno acabou! Viva a Primavera!". Olhei para o relógio que pouco passava das dez horas da manhã, olhei a janela e deixei-me levar... Um estalo na parte de trás do cérebro fez-me acordar para a vida. Primavera!? Deitei a torrada para o prato apenas com duas dentadas no miolo... creio que derramei o café na bancada (o gato estava acelerado demais quando voltei para casa)... e sai a correr porta fora. Objectivo? Biblioteca! Corri tresloucadamente, como quem corre a fugir de um enxame de abelhas assassinas que vêm dizer um olá matinal. Choquei contra o rapaz dos jornais, tropecei num Dálmata e num Setter de umas quaisquer damas da cidade. Se me deslocasse mais rápido, estaria certamente qualificado para os jogos Olímpicos... pode-se dizer que fiz jus à palavra correr. Cheguei à porta da Biblioteca. As suas portas exteriores encontravam-se fechadas. O porquê percorreu-me o cérebro diversas vezes... era Primavera, e eu tinha de a ver novamente! Havia taipais em torno da biblioteca, formando uma intrincada muralha à sua volta. Na porta, uma pequena folha A4 transmitia a informação que me trespassou como uma faca. Lia-se: "A Biblioteca encontra-se encerrada para obras. Lamentamos eventuais inconvenientes!". "Como podem lamentar eventuais inconvenientes se nem sabem que inconvenientes são?" pensei para comigo. Sentia-me perdido... certamente não tão perdido como se estivesse num armazém de 10 andares repleto de roupa feminina, mas aquele perdido de quem foi deixado a flutuar no espaço por uma qualquer missão espacial. Não a poderia ver. Nunca a havia visto em qualquer outro lugar que não aquela biblioteca e as batidas na porta da mesma apenas traziam trolhas que me enxotavam como se fosse uma mosca. Afastei-me relutantemente enquanto olhava sobre o ombro para todo o edifício, com a tinta descascada e janelas escancaradas a deixar fugir o pó levantado pelas máquinas. À sua frente, um pequeno jardim aguardava os meus lamentos. Refugiei-me num banco e contemplei ao céu com desagrado. Sabia que era a altura de a ver... mas não me deixavam. Estávamos presos em lados opostos da mesma porta.

A alguns metros, uma pequena borboleta pairava... batia as suas lustrosas asas de mil cores, as mesmas mil cores que preenchem os intervalos entre as sete cores do arco-íris, mas que por teimosia ou timidez não se querem mostrar. Senti algum conforto e sorri. A borboleta aproximou-se e só então me apercebi que toda aquela magia que estava à minha frente era a mesma que me prendeu durante tantos meses naquela biblioteca... a mesma que me fez sofrer durante o Inverno e a mesma que me fez cá voltar. "Tudo se transforma..." pensei. Tal como um prado seco e sem vida dá origem a novas ervas, e essas ervas a insectos, pássaros e afins... também aquela pequena lagarta dos livros que tanto contemplei se transformou para seguir o seu caminho. Era agora mais um dos espectros de cor e alegria que enchem as Primaveras. Por momentos, os nossos olhos se cruzaram... perderam-se na mesma cumplicidade que havíamos partilhado tantas e tantas vezes. Mas desta vez não transmitiram tristeza, antes uma alegria pelo reencontro e um obrigado pela companhia. Ela voou alto até se perder no céu. Fiquei a contempla-la até não mais a ver... voltei para casa. De certa forma, senti-me novamente feliz.

FIM

Shuri Kata

terça-feira, maio 26, 2009

Buhemian

Sais à rua como se não passasse de um costume,
Encharcas-te brutalmente e perdes-te na noite,
Bem que procuras mas nenhuma conversa vem a lume,
Engasgas-te, tombas... fazes merda e levas um açoite.

Ainda tentas encontrar alegria na bebida,
Eterno refugio de mui grande gente,
Menosprezas outras coisas boas da vida,
Gastas o ar jovem, desperto e inocente.

Continuas a acreditar que nada se altera,
Que o tempo corre rápido e nada muda,
Mas a vida boémia esconde uma face bera,
E com tanta bebida, já ninguém te atura.

Tentas ser o fixe, o baril, o bacano...
Exploras as tuas potencialidades até ao limite,
Acabas por mandar boas amizades pelo cano,
E as asneiras? Essas estoiram como dinamite!

E quando tudo te passa, e nada tens ao acordar,
Olhas para o mundo numa nova perspectiva,
Vês que afinal o tempo teima em passar,
E que aquela gente, afinal também já se priva.

sábado, maio 16, 2009

Há...

Há dias mais introspectivos que outros...
Há momentos em que as ideias brotam gentilmente...
Há olhos que cativam e nos transformam em loucos...
Há palavras que calam toda a gente.

Há luzes que atraem mais traças...
Há nuvens que pingam mais do que deviam...
Há coisas que não se resolvem por mais que faças...
Há mentes que não pensam... criam!

Há criaturas que se destacam pela elegância...
Há outras que pecam por serem espampanantes...
Há quem seja julgado pela sua arrogância...
Há vidas que se cruzam, como amantes.

Há sons que nos atraem mais...
Há músicas que tocam a nossa alma...
Há tons que se destacam dos demais...
Há gritos que exprimem a nossa calma.

Há segundos que mais parecem horas...
Há horas que quase não se sentem...
Há tempo para aguentar certas demoras...
Há mentiras que simplesmente não se vendem.

Há alegrias em rostos apagados e tristes...
Há tristezas apagadas em alegres vidas...
Há silêncio mesmo quando muito insistes...
Há sentimentos em todas as frases lidas.

Há vida mesmo onde nada cresce...
Há razão por detrás de um açoite...
Há aquele momento que connosco mexe...
Há sempre dia depois do breu da noite.

terça-feira, abril 28, 2009

Só para quem necessita...

Alguém Me Ouviu
Boss AC
Projecto UPA: Unidos Para Ajudar

(Boss Ac)
Não me resta nada, sinto não ter forças para lutar
É como morrer de sede no meio do mar e afogar
Sinto-me isolado com tanta gente à minha volta
Vocês não ouvem o grito da minha revolta
Choro a rir, isto é mais forte do que pensei
Por dentro sou um mendigo que aparenta ser um rei
Não sei do que fujo, a esperança pouca me resta
É triste ser tão novo e já achar que a vida não presta
As pernas tremem, o tempo passa, sinto cansaço
O vento sopra, ao espelho vejo o fracasso
O dia amanhece, algo me diz para ter cuidado
Vagueio sem destino nem sei se estou acordado
O sorriso escasseia, hoje a tristeza é rainha
Não sei se a alma existe mas sei que alguém feriu a minha
Às vezes penso se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que diz…

(Mariza)
Chorei,
Mas não sei se alguém me ouviu
Então sei se quem me viu
Sabe a dor que em mim carrego e a angústia que se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo
Busquei
Nas palavras o conforto
Dancei no silêncio morto
E o escuro revelou que em mim a Luz se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo

(Boss Ac)
Não há dia que não pergunte a Deus porque nasci
Eu não pedi, alguém me diga o que faço aqui
Se dependesse de mim teria ficado onde estava
Onde não pensava, não existia e não chorava
Prisioneiro de mim próprio, o meu pior inimigo
Às vezes penso que passo tempo demais comigo
Olho para os lados, não vejo ninguém para me ajudar
Um ombro para me apoiar, um sorriso para me animar
Quem sou eu? Para onde vou? De onde vim?
Alguém me diga, porque, me sinto assim?
Sinto que a culpa é minha mas não sei bem porquê
Sinto lágrimas nos meus olhos mas ninguém as vê
Estou farto de mim, farto daquilo que sou, farto daquilo que penso
Mostrem-me a saída deste abismo imenso
Pergunto-me se algum dia serei feliz
Enquanto oiço uma voz dentro de mim que me diz…

(Mariza)
Chorei
Mas não sei se alguém me ouviu
E não sei se quem me viu
Sabe a dor que em mim carrego e a angústia que se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo...
Busquei,
Nas palavras o conforto
Dancei no silêncio morto
E o escuro revelou que em mim a Luz se esconde
Vou ser forte e vou-me erguer
E ter coragem de querer
Não ceder, nem desistir eu prometo...

(Boss AC)
Tento não me ir abaixo mas não sou de ferro
Quando penso que tudo vai passar
Parece que mais me enterro
Sinto uma nuvem cinzenta que me acompanha onde estiver
E penso para mim mesmo será que Deus me quer
Será a vida apenas uma corrida prá morte
Cada um com a sua sina, cada um com a sua sorte
Não peço muito, não peço mais do que tenho direito
Olho para trás e analiso tudo o que tenho feito
E mesmo quando errei foi a tentar fazer o bem
Não sei o que é o ódio, não desejo mal a ninguém
Vai surgir um raio de luz no meio da porcaria
Porque até um relógio parado está certo duas vezes por dia
Vou-me aguentando
A esperança é a última a morrer
Neste jogo incerto o resultado não posso prever
E quando penso em desistir por me sentir infeliz
Oiço uma voz dentro de mim que me diz
Mantêm-te firme!

Espero que a letra vos faça sentido.

Cumprimentos,

Shuri Kata

terça-feira, abril 14, 2009

Alguma divagação...

Mente abstracta e confusa,
Loucura no pensamento,
Sente a repulsa,
De quem te procura com sentimento.
Passas pelo mundo,
Olhas o horizonte com lamento,
Levanta-te desse buraco imundo,
E vem mostrar o teu talento.

Tens a porta aberta,
Dão-te a mão com objectivo,
Põe a cabeça desperta,
Que é bem mais que um adjectivo.
Esta é a hora certa,
Para te focares num compromisso,
Trabalho que te liberta,
"Porra, afinal é mesmo isso!"

Sê livre deste jugo,
Combate na vida com intenção,
Porque no fim do mundo,
Apenas os livres resistirão.
Não vivas ao segundo,
Olha o futuro com ambição,
E no final de tudo,
Serás mais uma grande criação.

quarta-feira, abril 08, 2009

Respeito

Como conseguem ser tão ursos? Eu faço, eu aconteço, eu eu eu... Calem-se seus idiotas! Vocês não fazem é nada... Acham que são conquistas quando na realidade não fizeram senão um raide. Foram, massacraram e bazaram. Foram justos? Não creio que ser uma besta seja ser justo, mas as opiniões divergem. E quem segue sem olhar para trás acaba por ser o pior... que vive sem remorsos ou sentimentos. Que vê o rasto de destruição e não procura as vitimas, mas se as vir ainda calca em cima para ter a certeza que vai doer. Não são humanos... são criaturas vis com sérios problemas. Curem-se! Procuram apenas a sua felicidade. É bonito? Acham? Então experimentem proporcionar a felicidade alheia, quer seja por uma moeda, por um naco de pão, uma simples palavra ou apenas um sorriso. Não custa nada e a vossa felicidade será bem maior. O egocentrismo está desactualizado. Já não vivemos em aldeias e a população mundial não se resume a meros milhares. Actualizem-se e sejam melhores. Ou permaneçam assim... estupidos.

Quanto mais conheço destas pessoas, mais gosto de animais. Aquele que não respeita o próximo não pode merecer respeito.

Sinceramente,

Rick

sábado, abril 04, 2009

Just breathe...

Até que ponto somos "solos"? Até que ponto conseguimos olhar em volta e dizer: "OK, Eu sou um ser independente e livre!"

És livre? Ou não serás mais um escravo desta vida? Comes... porque tem de ser. Bebes... porque tem de ser. Vives... porque te meteram cá. Segues regras, tens papeis que dizem valer dinheiro, tens responsabilidades enquanto cidadão, tiras a carta de condução apenas como formalidade, votas porque é um dever.

Mas é isso que queres fazer? É essa a liberdade estúpida que todos temos, repleta de deveres cívicos que não interessam ao menino Jesus? É como temos de viver... tais ovelhas no prado... quais formigas humanas que dizem Amén a quem diz que manda.

Eu... em certo modo sou livre. Respiro por escolha minha, inalo as fragrâncias da vida... E quando me sinto preso, penso: "Just Breathe... and I'll always be free!"

sábado, março 14, 2009

Eu, tu e uma tarde...

Tão ténue de sorriso,
Deveras branda no olhar,
Sedoso o seu cabelo liso...
Mais que perfeita no amar.

Corpo curto, silhueta esguia,
No peito, tamanho coração.
Da boca, tão terna melodia,
Nos lábios, a tentação.

Brisa mais que leve,
Um sol quase a escaldar,
Tempo demasiado breve,
Que não se sente passar.

Dois dedos de boa conversa,
Uma pitada de pura magia,
Chuva em proporção inversa...
E quanto baste de alegria.

domingo, março 01, 2009

Soldade...

Onde estão os deliciosos dias de sol,
Que falta faz a sua calorosa alegria.
Mirar no campo a perdiz e a prole,
Enquanto se banqueteiam durante todo o dia.

Agora, olho a noite pela janela,
Deveras escura, e mais fria ainda,
Aguardo que o sol saia da sua cela,
Para nos brindar com uma manhã linda.

O sono há muito que me tolda a mente,
Convida-me para mais uma noite gelada.
Espero que anteceda uma manhã bem quente,
E uma bela tarde, numa qualquer esplanada.

sábado, fevereiro 14, 2009

Melancolia

Por vezes somos assolados pela melancolia.
Surge do inesperado, sempre à espreita.
Depois somos atacados nos momentos mais solitários,
Quando nos encontramos meditativos, inspirados, sós.
E que miserável sensação é esta que nos corrói aos poucos,
Que nos crava as unhas e rasga o peito,
Desfazendo sonhos e criando tormentas.
Parece que há dias assim, menos bons,
Em que os pensamentos descarrilam sempre para o mesmo...
Em que o coração parece rebelar e parar,
Deixando-nos simplesmente mortos por dentro.

Ode à Primavera

O tempo vai-se clareando,
Está mais quente, mais cativante.
A névoa sobe, alertando,
Que nada será igual doravante.

Num momento eternamente solene,
Torna-se pasto, desperto e alegre.
Sem mostrar o seu rosto perene,
No que era nefasto, corre agora uma lebre.

Do vistoso frio, pouco ou nada resta,
Nem a errante brisa, nem a neve.
E como que por uma pequena fresta,
Brilha agora o sol, sobre a bruma leve.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Confusão

Uma palavra deveras inocente,
Com uma tamanha repercussão.
Na ordem outrora latente,
Gera-se agora a confusão.

Se por te amar, punido fosse,
Por cada simples respirar;
A quem ao mundo te fez e trouxe,
Eu teria de pedir para me ajudar.

Tanta luta e sofrimento,
Querendo fugir à total anarquia.
E na fúria desse eterno momento,
Esqueço-me que viver é uma mais valia.

domingo, fevereiro 01, 2009

Olhar para trás

É impressionante a fragilidade da nossa existência,
E entremeando essa mesma perenidade,
A quantidade de coisas que no fundo deixamos por fazer.
Os beijos que deixamos de dar a quem amamos,
Ou simplesmente as palavras que se reservam para depois;
Um grande abraço àquele amigo que precisa,
Ou um esforço mais para atingir o cume da vida.

O pior é que algum tempo mais tarde,
Quando meditamos e olhamos para trás,
Vemos que tanto foi esquecido... olvidado.
Sentimos que apesar da completude da nossa vida,
Bem mais cheia ela poderia estar.
De memórias, beijos, carinhos, amigos...
E não podemos deixar de nos culpar.

domingo, janeiro 25, 2009

...

Por vezes oscilamos na corda bamba,
Sentimos a adrenalina correr nos sonhos,
Vemos o mundo numa nova perspectiva,
E perdemo-nos em irreais pensamentos.

Talvez gostoso, talvez eléctrico,
Jamais sabereis... tamanha tormenta.
Que num momento apenas cresce,
E a sede de amor aumenta.

Se um dia puderes olhar,
Bem no fundo do coração,
Saberás que da ralé das naves,
Navegarei em perdição.

De um toque, a magia...
De um sorriso, a emancipação...
Num suspiro de alegria,
Saram-se as feridas do meu coração.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Awake...

Behold a new hope my friends...
Standing right there on the horizon.
My only question is:
How long for you to reach it?

How can you stay focus in a world of torment?
I've been there, I've done that...
I know the path it takes to redemption.
And are you still there listening?

Why don't you reach for a new beginning,
Free yourself from the evil that corrupts your mind.
Be one and only, be someone!
Remember that your life is too short to remain dead inside.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Para pensar...

Ficam aqui umas coisinhas que aprendi ultimamente.

"Vale mais um diamante com uma falha do que um berlinde perfeito."

"Uma mão cheia de tempo compra uma mão cheia de dinheiro, mas uma mão cheia de dinheiro não compra uma mão cheia de tempo."

Boas reflexões...

Shuri Kata

domingo, janeiro 04, 2009

Green Thoughts

Just feel the shaking soil...
Look towards the infinite sky,
And watch the clouds crumble.
It's time to fight, once more!
You can break free from the oil,
Its for our own future, no lie.
And the world will become humble,
Green and clear just as before.

Stop everything, stay still!
How can you live like this?
Can you still actually breathe,
Or are you just dying there?
Release Gaia from ruler's will,
Together we cannot miss!
So that one day as a creed,
We may let nature take care.

sábado, janeiro 03, 2009

Plantae

Leve, brota com a sua elegância,
Rompe a terra para vir ao mundo,
Frágil, nada tem ainda de fragrância,
Sente o raiar do sol ao segundo.

Estrutura marcada e elegante,
Com vigor se ergue, caprichosa.
Como que para tocar num amante,
Sempre cresce e busca, pesarosa.

E na bruma breve da manhã,
Por entre muitas outras reluz,
Mesmo quando a vista nada enxerga.
No seu tronco suave como a lã,
A seu fantástico reino faz jus,
E o mais belo toque de orvalho enverga.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

New years sun...

Com um sentimento bastante próprio,
Talvez ainda agitado, pouco tranquilo,
Forte, vibra lá no alto com diligencia,
E com tão amada clareza se pronuncia.
Quando no rosto batem, seus raios são ópio,
Seu brilho evidencia um alaranjado estilo,
Fim da folia, o principio da consequência,
É um novo ano... e o seu primeiro dia.

Um óptimo ano novo.

Shuri Kata

sábado, dezembro 27, 2008

24º Capitulo - Tempos de Guerra

O chamamento para o combate ressoa pela cidade. De uma das torres, um vigia assinala o que parece o inicio do fim, o purgar da terra, o castigo dos penitentes por parte de criaturas estranhas e alimentadas a sofrimento e angústia. As tropas nas muralhas redobram, mas ao invés de prontidão, apresentam espanto e temor. “Aqui em cima”, grita Abdul, fazendo-me virar a cabeça para a muralha que se encontrava à minha esquerda. Escalo as escadarias o mais rápido possível. À minha frente começam-se as desfraldar os terrenos circundantes ao castelo. Primeiro as copas nos pomares de laranjeiras… os seus troncos… depois os primeiros contornos dos montes… e finalmente o brilho de centenas de objectos, centenas de criaturas de vidro negro. De diferentes formas e alturas, ocupando linhas diferentes como se de diferentes classes se tratassem. Uma mancha negra que cerca toda a muralha Norte e Este do castelo não fosse alguns espaços entre aquela grandiosa formação. Da muralha Sul, ouvem-se os primeiros gritos dos vigias. Também pelo Sul estamos cercados pelo que aparenta. Teht aparece na muralha. “Que tal o panorama deste lado?” pergunta. “A Este, eles apresentam uma disposição idêntica. Há algumas linhas laças que pudemos furar, mas tirando isso, é uma mancha escura.” Ambos assentimos e perdemo-nos por mais uns minutos a perscrutar o horizonte. Voltamos à sala do governador. Temos informações sobre a disposição das tropas inimigas, e eventualmente das classes que trouxeram para o combate. Debate-se intensamente a melhor forma de defesa. Pela disposição, as tropas mantiveram-se em movimento durante a noite. Cortaram-nos linhas de abastecimento e não devemos esperar notícias a não ser pelo rio. Pelo menos esperamos não ter perdido essa área também. De acordo com o governador, podemos recorrer a esta dádiva para aceder a uma aldeia piscatória junto ao mar. O ultimo recurso talvez. Decidimos enviar uma equipa de batedores para saber se é realmente viável... se pudemos enviar todos os não combatentes por lá para que possam escapar de barco. No mar não os apanharão certamente. Sente-se no ar o nervosismo, os demónios Phobos e Demos que os gregos tanto temiam, assolam as almas dos que se encontram nesta sala. Os pesadelos de muitos tornam-se agora realidade. É tarde... O céu envolve-se de amarelos e laranjas enquanto o sol se prepara para deitar no mar. A luz que entra pela janela a Oeste aquece-nos e dá-nos alguma esperança. Falamos sobre a possivel chegada de Yusuf no nosso auxilio. Seria mais do que bem vinda. A sua presença no campo de batalha instiga temor a quem o enfrenta. E em tempos de cerco, apanhariam o inimigo pela retaguarda, o que desbarataria as tropas muito mais facilmente. Espéculações... ou realidade se Alá permitir. Deixo os estrategas a preparar as coisas e vou para o exterior. Subo às muralhas e junto-me ás centenas de olhos que prescutam o horizonte. As tropas inimigas refletem os tons do céu. Estão imóveis, esperam a distância segura. Esperam certamente pela noite para atacar... a NOITE! Como os vamos ver de noite? Algumas ideias ocorrem-me e desço rapidamente de volta a casa do governador. Chego ofegante a uma sala cheia de vultos de homens, não homens na sua verdadeira essencia. Estão esbatidos em pensamentos e restias de um raio de luz que alumie a tenebrosa escuridão da batalha. "A noite! Eles vão usar a noite, mas certamente não esperam que nós também a usemos!" grito enquanto procuro ar para respirar. Os seus olhos cansados recaem sobre mim. "Que ideias malucas tens tu em mente, ó poeta?" pergunta Abdul. Começo a expor as minhas divagações... Que Alá as torne realidade.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Merry Xmas

É Natal... É Natal...
Ecoa vibrantemente por toda a parte.

Seja alegria,
Eterna felicidade,
Brindemos juntos amigos...
Estranha melancolia,
Imensa saudade,
Loucura em tempos idos...

É Natal... É Natal...
Vibrantemente ecoa com toda a arte.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

23º Capitulo - No outro lado

Onde estou? Que local negro é este? O que me aconteceu afinal? Que desígnios terá Alá reservado para mim nesta penumbra? Lembro-me daquela pedra negra; daqueles rostos a gritar por ajuda; de um calor intenso que me consumia o peito... e de um frio de morte que me tocava o corpo! Estarei morto? Não acredito que a criatividade de Alá se tenha ficado por algo tão... triste, negro, sombrio. Olho em volta. Pelo que a minha vista alcança, apenas pequenos tons de arroxeado sobressaem da penumbra, pequenos contornos que se destacam, rectos, talhados. Parece que estou dentro do cristal para o qual estava a olhar. Será possível? E, se sim, onde estão aqueles tenebrosos rostos que o preenchiam? Um toque no ombro faz-me saltar de susto. Viro-me rapidamente e busco em vão a cimitarra no meu cinto. "Não creio que necessites dessa "arma" aqui." Disse, rindo, algo que não me pareceu mais que uma névoa. "Não há lamina que corte o vento... ou estaremos errados?" Indefeso, assenti. Mais não posso fazer num local que não me é de todo familiar, com visão reduzida e sem arma. Decido começar com perguntas inocentes... "Que quereis? Onde me encontro? O que sois vós?" Um novo toque no ombro faz-me entrar em sobressalto. Viro-me e uma nova voz sai da névoa que neste momento circula em torno de mim. "Somos tempo... Passado, presente e futuro... tudo e nada. Estás perdido numa pequena brecha que a tua curiosidade abriu jovem aventureiro. Não creio ter visto alguém tão jovem por estas bandas faz já algum tempo. Que ordem servis?" A custo, respondi. "Sou escritor e vim registar os feitos de Yusuf. Não sirvo uma ordem, apenas a vontade de Alá." Tudo em volta se agita... aparentemente a minha resposta não é bem aquela que estes estranhos espectros esperavam. Uma pequena frase ecoou naquele misterioso espaço: "Não está forjado... não tem sangue!" Sinto o peito a aquecer em proporções abismais. O amuleto queima-me a pele, tolda-me a mente, fere-me o raciocínio. Os segredos tornam-se frases, as frases tornam-se gritos, os gritos tornam-se insuportáveis minutos de pura agonia e sofrimento. Cerro os olhos na esperança de conter todas as minhas dores o melhor que posso, na expectativa que tudo passe depressa. "Não devia ser ele... ele devia ter sangue nas mãos..." reflecte nas paredes cristalinas que me rodeiam. Todos os momentos se tornam dor, respirar é um martírio, sentir é um sofrimento. Não aguento mais e sinto-me desfalecer. Ao fundo consigo ouvir o meu nome, nada mais. Apenas o meu nome... talvez um pouco mais perto agora. E agora ainda mais, como se me chamassem mesmo aqui, bem perto. Acordo com os guardas a abanarem-me e a chamarem por mim. "Está bem?" Assinto com a cabeça, um pouco perdido com tudo o que se passara. "Senhor... eles estão aqui... estamos a preparar a defesa da cidade." Tudo passara depressa demais. Apenas mais um paradigma na minha estada nesta cidade. Terei de me juntar ao resto dos meus colegas para ganhar com dor ou morrer com honra. Ao sair do quarto olho para um canto do chão. Ali jaz o cristal, sem vida, seco e escurecido. Uma pequena racha preenche o local onde eu tinha visto todos aqueles espectros... os mesmos com que creio ter falado. Alá criará discernimento para as provações que se avizinham.

terça-feira, novembro 25, 2008

22º Capitulo - Estranha pedra negra

Maria dorme profundamente após toda aquela agitação a que foi exposta. Levanto-a do cadeirão e levo-a para a pequena cama que ocupa a parede sul do quarto. Deito-a e recosto-a confortavelmente para que possa descansar em paz. Decido depositar as duas belas adagas por debaixo da sua almofada, já que não serão necessárias as palavras para me dizer o que a sua pequena boca não conseguiu proferir. Já sei que esta pequena criatura carrega nos ombros um peso muito maior do que o seu. Tem o fardo do destino para transportar... assim como eu e todos os que neste momento se encontram nesta maldita cidade. Quando abandono o seu quarto, dou de caras com dois guardas que, com toda a azafama que se passava na sala, decidiram verificar se todas as divisões da casa se encontravam sem problemas. Peço-lhes que guardem o quarto com a sua própria vida, caso seja necessário, e que deixem a Maria descansar. Os olhos de ambos estavam absorvidos pelos restos de vidro negro que estava espalhado pelo chão do quarto. Ao tentar explicar o que se havia sucedido, também os meus se prenderam com algo que se realça entre aquela amalgama de cristal: há algo mais ali... algo talhado, não partido. Aproximo-me com cautela e observo com maior atenção. É negro, reluzente como todos os restos, mas aparenta ter algo no seu interior, talvez fumo, tal bruma que nele se encontra encerrado. Decido apanha-lo. O que quer que seja, merece uma observação mais cuidada. Levanto-o contra a luz para que o meu olhar possa atravessar o seu interior. Os jovens soldados prendem-se atrás de mim tentando também ter um vislumbre daquela pedra. Sinto os meus pelos eriçarem-se como se todo eu gelasse. No peito, sinto um ardor intenso... o amuleto queima-me como nunca me havia queimado. Quando a luz exterior consegue atravessar aquela escura pedra, vejo caras... dezenas de caras na maior das agonias, como que gritando, como que pedindo ajuda. Esfumam-se e tornam a materializar-se, sempre com o mesmo ar de dor, rogando por liberdade. Sinto-me tremer. Mas afinal o que é isto? Porque trará este "Batedor" algo tão negro consigo? Será esta a alma dele, ou apenas a chama que o mantinha focado nos seus objectivos? Ouço os guardas chamar-me bem ao fundo enquanto ainda perscruto aquele objecto; depois um choque no peito e sinto-me leve... a cair. Com as forças que me restam, olho o cristal agora vazio e o peito inflamado em dor. Alá me acuda pois de nada mais me lembro.

quarta-feira, novembro 12, 2008

...Quote...

I don't need to tell you things aren't good...
Everybody knows things aren't good!
We know are air is unfit to breath and our food unfit to eat.
Young punks are running the street, no one knows just what to do, and there's no end to it.
The dollar buys a pennies worth, the banks are going under,
Coper's are keeping a gun under the counter!
We sit, watching our idiot boxes, while some local anchor man tells us that today we've had 18 murders and 80 violent crimes, as if that were the way things were suppose to be!
We know times are bad... worse than bad... people are crazy!
Is like everything, everywhere, is going utterly mad!
So we never leave out homes; we sit in our comfy abodes,
While the world is getting smaller and we say:
-"Come on! At least leave us alone in our family rooms. Let me have my microwave and flatscreen and my 20 inch wheels and I wont say anything! Just leave us alone!!"
Well, I'm not gonna leave you alone! I want you to get angry!
I don't want you to riot, I don't want you to protest,
I don't want you to write your senator because i won't know what to tell you to tell him.
I don't know what to do about the recession, and the inflation, and the crime in the street!
All I know is that you got to get mad!!!
You've got to say: -"I'm a human being dammit!!! My life has value!!!"

quarta-feira, novembro 05, 2008

Equilibrium

Muitas das pequenas escolhas que fazemos são perfeitas,
São simplesmente límpidas, certeiras e unicamente discretas.
Outras escolhas, são desmesuradamente opostas...
Muito obscuras, erróneas e totalmente marcantes.

A nossa vida faz-se de um pouco das duas,
Tal como o azeite está para o vinagre num galheteiro,
Ou o sal para a pimenta...
Separados, dão um toque subtil à vida.
Juntos, são a própria alegria de viver.

quinta-feira, outubro 23, 2008

The little devil

Awake little devil,
Come outside and play.
Stretch your wings in the sun,
Because today is the day.

Feel the lust in you face,
The monotony of people in your hand.
Have a bite in some sinners,
Be the owner of some land.

Such a tiny little creature,
Pretty ugly I must say.
Burn this world in a minute,
Be the one to affray.

sábado, outubro 11, 2008

Mudança...

Por vezes é estranho sentir a mudança...
Ver que temos de cortar com as raízes,
Que temos de partir para saber se a relva é realmente mais verde do outro lado.
Deixar os tempos de criança,
De rapaz e de adolescente em cima da mesa...
E vestir a pele do adulto que nos fomos tornando ao longo de tanto tempo.
No fundo somos como pequenas e enfadonhas lagartas
E vamos crescendo, crescendo, crescendo...
Para um dia nos podermos metamorfosear e ter asas para voar.
E o mais incrível é que quando olhamos para trás,
Com a melancolia de quem perde algo querido,
Sabemos que tudo faz parte...
E que é apenas a nossa vez de descobrir o mundo.

terça-feira, outubro 07, 2008

Death's Journal...

Days become darker...
The age of glory has long gone in this doomed world,
And the remnants of Humanity still stumble outside.
Scarfaced... dismembered... poisoned with lies.
Plants got tired, they simply decided not to grow anymore,
Condemning each and every breathing creature to a certain and sofucating death.
A few privileged have fled some time ago...
To a new Earth, they said, where they can start all over again.
I believe it's just a matter of time until they doom that other planet too.
It's just part of Human nature...
To destroy in seconds what took eons to build.
And I know I'll be there to witness its fall!

But for now... I'll walk alone,
Just wondering as days become darker...

domingo, outubro 05, 2008

Blur...

Por muito que se procure,
Por muito que se caminhe,
Não será ao alcance da vista,
Nem no alto daquela montanha...

Que encontrarás a felicidade.

Por muito dinheiro que se tenha,
Por muito grande que seja o teu império,
Não será com a riqueza,
Nem com um gigantesco exército...

Que terás a felicidade.

Por muitos livros que leias,
Por muito que te isoles para pensar,
Não será escrito nas letras,
Nem na mais profunda meditação...

Que saberás qual o significado da felicidade.

Porque ela não é palpável,
Não é adquirível,
É inimaginável...

É, pura e simplesmente, feita por ti!

terça-feira, setembro 09, 2008

Acordar

Acorda meu caro amigo...
Vem sentir o toque do vento,
Que dá tamanho alento,
A quem vagueia sem abrigo.

Acorda rápido jovem camarada...
Vem, juntos lutaremos lado a lado,
Não mais viveremos neste estado,
De quem olha em volta e não vê nada.

Salta da cama molengão...
Tanto tempo perdes e nada fazes,
Com o tédio à muito fizestes as pazes,
Tornaste-te escravo da tentação.

Acorda!!!

sexta-feira, agosto 22, 2008

Overseer

Gosto de ver, de observar…
De sentir o ar acariciar-me o rosto.
Gosto de ver toda a gente passar,
E seguir no sentido oposto.

Prefiro ficar a um canto,
Ver de longe, invisível.
Ler até onde vai o encanto,
Do povo que passa, insensível.

Gosto de pensar sozinho,
Ir longe por um momento.
E quando volto, adivinho…
Sei qual é o teu tormento.

I am the Overseer!

Coisas

Não me lembro de escrever,
De sentir a mente fluir livremente.
Tenho-me ofuscado com ideias loucas,
Sentimentos tristes que me ferem…
Que esmagam os meus pensamentos.
Luto por ser mais um perfeito,
Por ser mais um exemplo,
Por um amar melhor que o dos outros.
E no fundo,
Quando paro para respirar,
Sou apenas mais um a lutar,
A combater o dia-a-dia com alento.
Para um dia de manhã poder acordar e dizer…
Creio que afinal valeu a pena!

domingo, agosto 17, 2008

21º Capitulo - O segredo de Maria

Instala-se o nervosismo entre os presentes. É atroz a forma como o inimigo mina as relações que, por ténues que sejam, apresentam os mesmos objectivos. No meio de tanta berraria sinto o peito a arder. Sei que a criatura não foi longe... posso senti-la perto... bem perto. O latejar do amuleto que trago no peito torna-se mais intenso. Maria! Creio que Maria ainda se encontre no quarto e o facto daquele "Batedor" estar à solta não me deixa minimamente confortável. Enquanto os soldados se encarregam de libertar as suas frustrações, numa acesa troca de palavras e insultos agora mediados pelo governador, decido ir investigar o andar de cima. Para além de uma agradável brisa que desce pelas escadas, nada aparenta estar mal... Pouco mais acima, começo a ouvir um som abafado de alguém que tenta gritar e não consegue. Apenas um pensamento me ocorre: "Apanhou a Maria!". Corro direito ao seu quarto, com a cimitarra desembainhada. A sua porta está bloqueada. Em força, tento abri-la, desesperadamente. Os sangue flui-me pelo corpo a uma velocidade vertiginosa. Sinto-me carregado... e explodo com um golpe tenso e frio na porta que me separa do que que agora me parece ser uma intensa luta. Pedaços de porta são projectados em todas as direcções, tal raio que a atravessara. No interior do compartimento, Maria tenta libertar-se do Batedor que havíamos capturado. Aproximo-me cautelosamente, não querendo que o monstro se sinta tentado a fazer-lhe mal. O que parecia ser uma pequena brisa, que corria desde a janela aberta, é agora uma ávida corrente de ar que me leva a semicerrar os olhos. Oiço o som de vidro a quebrar e no local onde se debatiam duas das criaturas mais misteriosas que conheço, sobra apenas uma delas e um amontoado de vidro, negro... vazio. Maria transpira fortemente... a sua fronte demonstra um cansaço extremo, de quem se debateu arduamente com a morte. Amparo-a e peço-lhe para se sentar. Da sua boca, um "Tenho algo para te dizer..." parece-me longínquo e ofegante. O som de metal a bater no chão do quarto termina-lhe a frase, enquanto a sua cabeça descai para o encosto do cadeirão. Decido deixa-la a descansar enquanto investigo o som que ouvi. No chão, as mais belas laminas preenchem duas adagas nobremente trabalhadas. Creio que foi com elas que Maria se livrou do Batedor... mas porque estaria ela com armas destas? Decido guardar as adagas comigo. Estou certo que Alá me dará as respostas brevemente.

terça-feira, agosto 05, 2008

Neve

Afiada como uma lança,
Talvez pena, de tão leve,
Os espíritos irados amansa,
E a alguém, nada deve.

Até onde a minha vista alcança,
Por um momento deveras breve,
Continuais com a vossa dança,
Fria e branca, sois neve.

sábado, junho 14, 2008

Hail to Richard

Hehe... como já devem ter reparado, há uma nova contratação para este blog. Amigo à bastante tempo, e instruído na nobre arte da escrita, esta nova aquisição certamente irá dar mais vida a este enfadado lugar.

Espero que a sua escrita vos cative como me cativou a mim.

Cumprimentos

Shuri Kata

A quem já não está...

Sente o vento mudar,
O desabrochar...
O abrir do momento.
Sente o pranto no ar,
Por alguém que se foi,
Tamanho tormento.

Vê quantos amigos a chegar,
Quantos deles imemoriais,
Outrora perdidos no tempo.
E quantos conseguem apoiar,
Na mais íngreme miséria,
Dar a quem sofre algum alento?

São tristes sentimentos,
Um quanto de dor...
Tamanha amargura.
Ou seremos nós lentos,
Em compreender a vida,
Que pouco ou nada dura?

sábado, janeiro 26, 2008

20º Capitulo - Antigas inimizades

Todos se apresentam assombrados com o número de eventos que Alá tem reservado para nós, simples homens. Decidi sair da casa do governador, e apanhar um pouco de ar para aclarar as ideias. No fundo, a ideia de que aquelas cristalinas criaturas podem atacar a qualquer momento deixa-me irrequieto. Já na rua, sinto ondas de calor fluir pelo meu corpo, como se no meu inconsciente soubesse que algo de muito mau está a caminho. Respiro fundo e tento acalmar-me. Abdul também não se encontra muito descontraído. Vejo-o a desenhar algo sobre algumas folhas de pergaminho... muralhas, tropas... Creio que a sua presença no exterior seja reflexo da mesma ansiedade que me assola. O pequeno exército, que deverá proteger esta cidade, está cautelosamente colocado nas suas altas e sujas muralhas, aguardando. Sinto que, de certo modo, grande parte dos jovens que se encontram lá no alto, desejam que a paz e o conforto regresse à sua terra... mas temo que ainda irão passar por duras provações antes dos seus sonhos se concretizarem. Sinto o sol bater-me na cara como uma bênção... um pequeno sinal de que Alá está connosco. Rasteio as muralhas à procura de algo que evidencie problemas, mas os problemas encontram-se mais perto do que previra. Tulfah grita a plenos pulmões com Teht. “Onde é que ele foi?! Procura-o na tua pedra! Ou isso só permite que fales com eles, meu miserável?!” A confusão estava gerada no interior da casa do governador. Abdul e eu entreolhamo-nos e decidimos acudir àquela gritaria. Quando entramos, qual é o nosso espanto ao ver que a criatura, que teoricamente estava tão bem amarrada, simplesmente desapareceu. Do outro lado da sala, Tulfah e Teht empurravam-se violentamente, enquanto o governador tentava desesperadamente separar os dois sem ser agredido. Não creio que seja possível alguém, ou criatura alguma, escapar a tamanha prisão. “E ninguém viu como a criatura desapareceu?” pergunto inocentemente. A briga cessa, mas as acusações começaram de imediato. “Foi este miserável... tenho a certeza. Eles falam com ele através daquela pedra. Nunca se deve confiar num almoada!” grita Tulfah. Teht está claramente furioso... ouço-o pronunciar palavras iradas enquanto se afasta. Mais uma astuta jogada do inimigo. Como se atrevem a brincar com a nossa mente...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Mudança de mãos...

Boas pessoal... queria apenas informar que acabei de adquirir este blog a mim mesmo. Tenho de dinamizar isto porque me parece que o jovem nis_latromi andava um bocadinho em baixo de forma.

A narrativa vai continuar, porém pontilhada com um pouco de outras coisas... isto de direccionar o conteúdo dos blogs não dá com nada.

Saudações aos resistentes

Shurikata

domingo, outubro 14, 2007

19º Capitulo - Chegada

O som emanado pela estranha criatura assombra a mente de todos os presentes na sala... grunhidos repetitivos que nos alertam para algo... mas para o quê? Teht entra na sala de sobressalto. Eufórico, nem se apercebe da criatura que se encontra na sala, tão embrenhado estava no seu amuleto. "Vejam, vejam!!!" exclamava enquanto o rodava. Depois de tantas horas de volta de uma criatura que emitia sons vindos de um outro mundo, procurámos algum consolo naquela pequena pedra que Teht carregava com ele. "Por Alá!" gritou Abdul quando arcaicamente conseguiu ler o que a pedra dizia. Confuso, aponto a minha cimitarra ao pescoço de Teht. Vejo o seu sangue gelar através dos seus olhos. Ver-se rodeado de estranhos a olharem com ar de poucos amigos, deixou-o imóvel. Cede-me o seu amuleto e posso constatar que as palavras aparecem e desaparecem como as areias do deserto em tempos de tempestade. Mas o estranho é que, no pescoço de Teht, formavam-se frases e não simplesmente palavras soltas... Entre ruídos da criatura e tentativas de leitura de uma pedra redonda e agora intensamente iluminada, todos começam a discutir, tamanha tempestade de areia se abatia sobre as suas mentes, ofuscando qualquer noção de lógica. Teht estava branco! Só agora vira o que se encontrava no centro da sala. "Como podem ter esta criatura aqui? Matem-na rápido! Ela vai contar tudo." diz descontroladamente. Tulfah enlouquece... parece que leu algo no amuleto que não gostou muito... e agarra Teht elevando-o no ar como se de uma pena se tratasse. "Quem é que chegou hoje pá? Quem?!" grita com o rapaz. Vejo a paralisia possuir o corpo de Teht. Mesmo que tentasse exprimir o mínimo ruído, o seu corpo recusar-se-ia a fazê-lo... é uma questão de pânico. Abdul interveio no momento certo. Tulfah solta Teht com um forte abanão... "Tás com sorte meu miserável!". Teht aproxima-se com receio... "Recebi-o à pouco tempo, nem sabia que apareciam frases nele." diz-me em segredo. Ficamos os dois a olhar para o dito amuleto. Ao contrário de Tulfah, eu sei perfeitamente o que o rapaz está a passar... ontem, eu ouvi as vozes que estão escritas naquele amuleto. Já cá estão! Mas quem?

quinta-feira, julho 12, 2007

18º Capitulo - Sem respostas

Voltamos a planear a hipotética defesa da cidade, apesar de em parte todos sabermos que é quase impossível resistir a um ataque tão devastador quanto aqueles que eram descritos nas lendas... Trata-se de dar a vida na esperança de impedir o avanço de um inimigo, sobre o qual não sabemos o que esperar. Após muita discussão, fazemos uma pausa no caos para descansar um pouco... saindo para a rua para sentir a refrescante brisa do final da tarde. Tudo parece tão calmo... mas eu sei tão bem tudo o que corre na cabeça das pessoas que passam! Sinto o medo e uma certa impassividade por parte de cada elemento desta cidade. Até as crianças estão sossegadas demais. Após uma breve pausa, voltamos para dentro para continuar a falar da defesa. Horas passam sem que se tirem conclusões concretas. Como se o cair da noite nos turvasse a mente ao mesmo tempo que o céu. Decidimos comer alguma coisa e ir para a cama. Talvez uma noite de sono nos meta a cabeça no devido lugar e, quem sabe, traga um pouco de discernimento a este tão desanimante assunto. Decido passar pelo quarto de Maria para me certificar de que estava bem... sei que estive ausente tempo demais no dia de hoje, e creio que lhe devo uma explicação. Como a noite, apresenta-se tranquila e relaxada, suavemente embalada pelo fresco que entra pela janela. Como dorme bem, tão pequena princesa! Decido deixa-la repousar... amanha falarei com ela. Deito-me ansioso! Acordo com um calafrio. Desloco-me à varanda e apercebo-me que ainda estava bastante escuro e as estrelas pouco se tinham deslocado. Olho o horizonte na esperança de encontrar a solução para os problemas que se avizinham. Coloco a mão no peito e sinto o amuleto quente... retiro-o e analiso-o calmamente. Cintila emanando uma ténue luz azul, tal estrela celestial. Dou uma mirada nas muralhas e nas ruas que se cruzam na praça. Nada vejo para além de uma ou outra luz balançante, de uma qualquer vela ou candeeiro de óleo aceso. Perscruto a minha mente em busca de alguma frase estranha como a do dia anterior. Está tudo estranhamente calmo! Volto para a cama na esperança de conseguir dormir. Quando volto a acordar, não é por iniciativa própria! Um guarda abana-me fortemente para me dar noticia da captura de um batedor inimigo. Levanto-me com um salto e visto-me à pressa. Escoltado, desço as escadas para me deparar com uma criatura cristalina e um tanto ou quanto assustadora. Fortemente amarrada, emite sons estranhos e imperceptíveis. Olhamos uns para os outros na esperança de encontrar algumas respostas... o vazio resume esta ultima noite. Sentamos-nos a observar aquela cintilante criatura. Afinal, de onde surgiram estes estranhos guerreiros?

terça-feira, abril 10, 2007

17º Capitulo - Os Caminhantes

O regresso à cidade é acompanhado pelo desaconchego de uma mente repleta de duvidas. Era claro que aquela criatura não poderia ser de origem natural. Simplesmente não existe animal algum que se assemelhe a ela. E o amuleto que trago no peito não pára de emanar calor, um calor desconfortante e agora misticamente estranho. Decido levar Teht à presença do resto do grupo. Os olhares de desconfiança não tardam em aparecer, mas a forma como Teht se apresenta não deixa margem para duvidas da sua boa vontade. Foi enviado para Cadiz para a protecção da cidade, alguns dias depois da queda da fortaleza de Gibraltar, mas aparentemente nem muitos milhares como ele a protegeriam. "Atacaram como relâmpagos... e apareciam de todos os lados. Foi impossivel!... gigantes carregados de arqueiros... os Caminhantes!" . Em toda a sua narrativa, nada havia criado temor nos corações dos meus companheiros, mas bastou Teht pronunciar a palavra "Caminhantes!" para a calma e o discernimento serem rápidamente perdidos na ampla sala. "Tais criaturas não existem!..." resmunga Tulfah... "Os tempos antigos acabaram com a queda do Génio Negro... já não existe magia como nos tempos dos nossos antepassados!... simplesmente não existe!". Os caminhantes eram algumas das criaturas mais temidas pelos rebeldes, na altura das grandes batalhas dos desertos. Gigantes bestas feitas de matéria negra, tão negro era o seu coração, capazes de transportar tropas a longas distâncias em pouco mais de um dia. Segundo se conta, podiam trazer todo um exército nas suas costas, esmagando qualquer cidade rebelde como os nossos pés calcam um qualquer pequeno e indefeso animal. Gera-se a confusão na sala... O governador deita as mãos à cabeça pronunciando uma amalgama de palavras incoerentes. Vejo a dúvida e o medo crescer rápidamente. Teht pousa a mão no meu ombro fazendo-me voltar à realidade. "Tenho de te falar de uma coisa..." sussurra ele baixo. Afastamo-nos do inacalmável grupo e Teht começa a falar. Foi enviado por Granada com a missão de ajudar na defesa de Cadiz. Furtivamente, atravessou os campos de batalha a norte de Gibraltar , acabando por chegar a Cadiz sem levantar demasiadas suspeitas. Aparentemente, o seu grupo acabou dizimado sobre o fogo intenso dos arqueiros que se encontravam nos Caminhantes, aquando da invasão de Cadiz. "Não consegui salvar ninguém... estávamos cercados e as flechas vinham de todo o lado. Foi uma sorte escapar... mas ainda não percebi como não me conseguiram acertar... Foi a graça de Alá, creio!". Lançamos uma gargalhada que provoca o silêncio no salão. Abdul olha-nos com afronta: "Nós preocupados com a cidade e as excelências a rir como doidos! É o que faz a guerra... uns morrem e outros ficam assim!" . Inocentemente, Abdul dá origem a uma gargalhada geral, um tanto ou quanto nervosa. Quem consegue compreender os designios de Alá?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

16º Capitulo - Batedor

O tempo passa devagar… demasiado devagar para quem espera! Mas a espera dá os seus frutos e transforma a mais densa névoa num pequeno véu que se torna simples de atravessar. O encadear da luz na minha vista faz-me vislumbrar algo mais no horizonte que os leves contornos dos montes cobertos de laranjeiras aqui e ali rasgados por ténues caminhos. Curioso, corro para as muralhas. Maria deixa-se ficar para trás, docemente embriagada com o caloroso abraço do sol. Já no alto, volto a percorrer o horizonte. Algo brilha no meio dos pomares… pequeno, talvez do tamanho de um homem… “Mas que raio será aquilo?” penso eu enquanto acompanho os seus movimentos por entre as árvores. Deixo a muralha com um nó de curiosidade no estômago e um escaldante latejar no peito. Sinto o amuleto quente, mas não aquecido pelo alto sol. Parece ter calor próprio… e foi aquela coisa brilhante no horizonte que o despoletou. Na cidade, todos se encontram ocupados e talvez distraídos demais para se preocuparem com aquela coisa estranha no alto do monte. Decido investigar. Perto da casa do governador falo com Abdul sobre as minhas ideias. Sedento de um pouco de ar fresco, decide vir comigo… “Mais não seja, comemos umas laranjas para adoçar a boca!” exclama com tom de gozo. Partimos a cavalo. A distância não é muita, mas uma saída a pé não seria uma atitude prudente em tempo de guerra. Cavalgamos rapidamente pelo meio dos pomares, evitando um contacto directo com o objecto brilhante. Já perto, desmontamos e prosseguimos com as cimitarras desembainhadas. Estranhos ruídos soam por entre as árvores… e o que aparentava ser apenas um objecto, é na realidade uma criatura estranha, feita de cristal negro. “Um batedor!” penso no mais profundo silêncio. Puxo a túnica de Abdul. “É um deles!”, sussurro. Recuamos para um pequeno declive e ficamos estáticos a tentar compreender o que realmente tínhamos visto. Ouvimos passos rápidos… o ardor que me queima o peito leva-me a levantar a cabeça. Vejo a criatura correr monte abaixo… “Ouviu-nos!”. Antes de conseguir proferir uma palavra que seja para alertar Abdul, oiço um leve assobiar rasgar o ar, seguido do claro som de cristal a partir. “A esta distância até num pardal acertava!”. Estamos em pleno alerta quando um jovem se deixa cair de uma laranjeira próxima. “Este não conta nada a ninguém.” ri-se enquanto guarda o seu arco curto. Teht é o seu nome, e é um dos poucos sobreviventes do ataque a Cadiz. Há dias que caminha para alertar o governador de Huelva, mas tem encontrado demasiadas criaturas para que a viagem seja breve. “Venham ver!”, exclama Teht. Puro cristal, nem carne, nem osso! “E há muitos mais por detrás daquele montes.” De quando em quando, pequenos pontos brilhantes refulgem pelas serras. Oiço Abdul engolir em seco enquanto agarra alguns restos da brilhante criatura. Mas que mais nos reserva Alá?

quinta-feira, dezembro 21, 2006

15º Capítulo - Estranhos pensamentos

Acordo exaltado. Uma pequena frase lateja na minha cabeça, como que uma réstia de sonhos macabros que não deseja sair do meu pensamento. “Chegaremos hoje…”. Lavo a cara e vejo um rosto conhecido já aos pulos na varanda. Maria aparenta estar bem alegre, brincando enquanto o sol se eleva. Visto a túnica e saio para tentar encontrar Abdul. Este encontra-se num salão outrora majestoso, actualmente transformado na sala de planeamento pelo governador. Já cá estão todos os meus companheiros de viagem, cada um ponderando e debatendo os pormenores de um possível embate. Sento-me um pouco mais afastado, comendo e tentando apagar da memória aquela frase tão curta mas perversamente perturbante. Abdul aproxima-se… Num movimento rápido atiro a sua bolsa. “Perdes-te isto?” pergunto. Abdul pára para pensar e sorri. “Não pensei voltar a ver isto… e sinceramente a ti também não!”. Fico estático. Abdul conta-me então tudo o que se passara com eles desde que nos separáramos. Porém, o que mais me intrigou foi o facto de, na sua narrativa, eu não estar com eles quando se deu o ataque. “Pensámos que eras um deles!” exclamou! Tulfah apercebe-se da conversa e aproxima-se. Olha directamente para mim e graceja desmesuradamente. Ainda estático com a cabeça às voltas e sem saber o que me tinha acontecido aquando do ataque, ouço novamente a mesma voz dos sonhos: “Preparem-se… Chegaremos Hoje…”. Tulfah dá-me uma sapatada que me faz voltar a mim. “…sim amigo… não sei o que realmente se passou mas cortava-te a goela se fosses um deles!” ri-se descontrolado. Ainda perturbado com a voz, peço desculpas e saio da sala. Já em outra sala, ouço Tulfah gritar: “Estava a brincar!... Que bicho lhe mordeu?”. Nem eu sei. Vasculho a minha mente para tentar perceber que voz é aquela. Nada… apenas o constante “chegaremos hoje”. Mas quem? Quem é que vai chegar hoje? Decido dar uma volta pela cidade para espairecer. Todos os outros se dedicam às tácticas e organização dos homens para o combate. Ainda é cedo, mas a azafama já invade as ruas. Balistas e catapultas são construídas, óleo é preparado, armas são limpas. Mulheres e crianças correm desenfreadamente para conseguir reunir o máximo de alimento possível para o que está para vir. Sinto-me vaguear. Tudo corre alucinadamente nesta cidade… tal como todas as coisas que me toldam o pensamento. Como é que eu desapareci se acordei exactamente no sítio onde me tinha deixado dormir? Como podem dizer que não estava lá? Não me terão visto? Por onde andei então, caso realmente tenha desaparecido? Sinto o familiar puxão de Maria nas minhas vestes. Pergunto-lhe como me encontrou. Para meu espanto, ri-se. “Não é muito difícil encontrar alguém à porta da casa do governador!”. E cá estou eu, estático… a poucos metros da praça principal. Nem dez metros percorridos? Por Alá… o que se passa comigo hoje?

sábado, novembro 25, 2006

14º Capítulo - Uma nova aliança

O olhar do governador torna-se grave enquanto lê a minha escrita. Na realidade, torna-se fulminante tamanha é a confusão em sua cabeça. Ao mandar chamar um guarda, ficamos em sobressalto. O facto de nos encontrarmos numa cidade não nossa, e estarmos oficialmente em guerra contra os almóadas, não nos deixa propriamente à vontade. Depois de algumas palavras o guarda abandona novamente a sala. Pouso a mão sobre a cimitarra e Maria calmamente refugia-se atrás de mim. Se houver sarilhos, teremos de sair daqui o mais rapidamente possível… o maior problema é atravessar o mar de soldados inimigos que se encontram no exterior. O governador tenta acalmar-nos. Decerto que a nossa identidade já fora descoberta, e acredito que a nossa proposta de ajuda na defesa o deve ter feito pensar bastante. Exclama: “A cidade é almóada, mas o povo sabe que os tempos dourados apenas se podem ver retratados pela pena dos poetas. Queremos a paz e a beleza de outros tempos. Considerem-nos vossos aliados contra este mal maior!” Fico em silêncio… Por momentos o espanto tolda os meus pensamentos, deixando-me ridiculamente como uma estátua sem o mínimo sopro de vida. Maria coloca-se à minha frente e sorri. “Tudo correu bem não foi?” pergunta alegremente com a sua infantil inocência. Neste momento, não tendo recuperado ainda a lucidez de espírito, entra o resto do meu grupo no palácio. O fedor que trazem é deveras insuportável. Compreendo que as catacumbas não deverão ser dos locais mais limpos da cidade, mas nunca pensei que pudessem cheirar tão mal. Tento evitar os abraços que tão calorosamente me tentam dar como forma de agradecimento. Abdul discretamente sussurra: “Temos de falar!”. Olho para ele como se não me tivesse dito nada e aceno ligeiramente com a cabeça. Há outras prioridades pela frente. Yusuf deverá ser alertado das ocorrências. Para a cidade resistir aos ataques, necessitamos de muito mais que cimitarras e flechas. Necessitamos de astúcia e estratégia. Essas duas qualidades estão mais do que reunidas no homem que nos trouxe nesta expedição. Peço por uma mesa, papel e pena, que me são prontamente disponibilizadas. Enquanto Maria repousa no meu colo, escrevo uma missiva para Yusuf, relatando tudo o que havia acontecido com o grupo. Akmer, o mais rápido batedor do grupo, pede-me que lhe conceda a honra de levar tão importante papiro. Tulfah, o “pequeno touro”, acena como sinal de aval. Estou certo que confiarão nas capacidades deste jovem. Parte imediatamente. O governador parece bem mais calmo e contente. São preparadas camas e comida para nós, dada a nossa subida do estatuto de espiões a convidados de honra. Amanhã começarão os treinos e outros preparativos para o embate. Acompanhado de Maria, dirijo-me para o quarto. Alá protegerá a cidade por mais uma noite.

quarta-feira, setembro 06, 2006

13º Capítulo - Más noticias

Olhamos as ruas à procura de feirantes menos bem dispostos… As túnicas assentam esplendidamente, mas a forma da sua aquisição é no mínimo criticável. Decido procurar mais informações com o governador. Se ele não suspeitar de quem somos, não creio que haja qualquer problema em responder a algumas perguntas. Percorremos ruas e ruelas, carregadas de gente cansada. Um burburinho enche o ar, proveniente das atarracadas casas que percorrem as ruas. Temem que depois da queda de Cadiz, a próxima a cair seja Huelva. Milhares de fragmentos de frases entram nos meus ouvidos. Porém, a junção desses mesmos fragmentos relembram-me contos de outras eras. Eras de destruição e poderosas criaturas que assolavam a minha amada Arábia. Avistamos a mesquita. Certamente que o palácio não ficará muito longe. Da pequena rua que percorremos surge uma enorme praça. Outrora majestosa e repleta de poetas, segundo descreve uma senhora, alberga agora milhares de soldados numa prontidão impressionante. Porém a sua prontidão não é de quem vá partir para a guerra, mas sim de quem está à espera que a mesma chegue. Atravessamos a praça com um ligeiro nó no estômago mas qualquer medida mais evasiva poderá denunciar-nos. Leio o terror na cara de muitos jovens que sentados no chão, vão limpando as suas armas. Não crêem na vitória pelo que me consigo aperceber. Terá a destruição de Cadiz sido assim tão grande? Poderá uma cidade cheia de soldados sucumbir tão rapidamente? Não pode ser obra de Al-Amiri e de Amir! O que quer que venha lá é decerto nosso inimigo também. À entrada do palácio o governador não aparenta calma nenhuma. O seu movimento frenético de um lado para o outro aparenta, isso sim, insanidade. Peço-lhe um pouco do seu tempo, algo que nervosamente ele dispensa. Quando lhe pergunto o que acontecera em Cadiz, o seu rosto torna-se grave e ligeiramente branco. Descreve uma história das antigas eras, aquando do aprisionamento de um talismã poderosíssimo nas grandes rochas de Gibraltar. Aparentemente, Alá aprisionou esse talismã por conter criaturas que o Homem não consegue controlar. “É negro… e negros se tornam os que o carregam!” clama o governador. Afirma que alguém o libertou e que a destruição alastra a cada dia. Teme que Huelva seja o próximo alvo. Tento compreender a gravidade da situação, apesar das minhas experiências sobrenaturais se limitarem à reza diária. Decido ajudar. Maria apresenta-se bem mais apreensiva. Quando informo o governador das nossas intenções de participar na defesa da cidade, ele ri-se loucamente. Entrego-lhe os papiros que tenho escrito. Talvez assim ele aceite a nossa ajuda. Alá trará luz a esta cidade.

sábado, agosto 26, 2006

Nota do Autor

A todos os leitores, um muito obrigado por continuarem a acompanhar esta criação. Devo-vos um pedido de desculpas pela demora entre o lançamento de artigos. Tentarei ser mais breve. Decidi dar nomes aos capítulos… digamos que “capítulo 2” não é um nome que nos remeta para o tema a tratar. Fiz também umas pequenas correcções nos textos. Desejo-vos uma boa leitura. Qualquer coisa é só comentar.

12º Capítulo - Huelva

A cidade aparenta uma decadência imunda. A grandeza das suas muralhas contrasta com a sua falta de preservação. O lixo acumula-se nos cantos sem a mínima preocupação de o limpar. Águas fétidas correm ao lado das crianças que brincam na rua. Mais uma vez consigo compreender os intuitos de Yusuf na conquista da península. Os efeitos da guerra prolongada são novamente evidentes, tanto na cidade como na sua gente. As pessoas que passam por nós aparentam um cansaço extremo. É com estas cidades fragilizadas que contamos para uma mais rápida expansão. Porém, esse assunto neste momento é apenas secundário. Temos de encontrar o resto do grupo. Percorremos a rua principal da cidade. O mercado está apinhado de gente. Maria, com o seu incomparável sorriso, faz-me uma pergunta que em todo me parece desapropriada para o momento: “Qual a tua cor preferida?”. A palavra “Azul” foi seguida de um rápido “Já venho!”. Fico estático ao ver aquela pequena miúda desaparecer na multidão. Ocorre-me que talvez não a volte a ver, mas em parte sei que aquela alma está cheia de surpresas. Vasculho a feira em busca dela mas essa mesma busca revela-se infrutífera. Encolho os ombros e sigo caminho. Uma bancada de kebab chama-me a atenção. Tenho as moedas de Abdul que poderei sempre usar. Estou certo de que não se importará. De barriga cheia, guardo outro kebab para a Maria. Se tornar a aparecer, saber-lhe-á bem. Entre os feirantes, procuro informações, ou pelo menos algo concreto a que me possa agarrar nesta busca. Na maior parte dos casos, em pouco ou nada me podem ajudar. Sinto um puxão na túnica que me é de todo familiar seguido mais uma vez de uma simples frase: “Vem… rápido!”. O alarido que provem da multidão agoira algo. Corremos loucamente pelas ruas labirínticas, até que uma pequena ruela nos servir de abrigo. Com um sorriso comprometedor, Maria estica-me uma túnica e um turbante de um azul indescritível. “É a tua cara!” exclama vigorosamente. Para ela, uma bela túnica laranja transmitia um eterno pôr-do-sol. Os olhos de Maria demonstram alegria enquanto se delicia com o kebab. Falando de boca cheia, conta-me o que ouvira no mercado sobre um grupo de homens armados, capturados esta manhã. Parece que procuram um outro soldado. Está claro que se trata do meu grupo. Segundo Maria, encontram-me na prisão aguardando interrogatório. Comenta algo sobre a destruição de Cadiz que em tudo me desperta a atenção. Consideram o meu grupo como parte do exército que esmagou essa cidade. “Talvez espiões!” afirmavam eles. Fico confuso. Não creio que sejam piedosos com soldados inimigos, e como tal, devo agir o mais depressa possível. Algo está muito mal e eu tenho de descobrir o que é. Alá dar-me-á forças para esta missão.

quinta-feira, agosto 03, 2006

11º Capítulo - Maria

A caminhada não se aparenta árdua nem interminável. A estrada percorre apenas algumas colinas antes de embater nas fortes muralhas de Huelva. Vou saboreando as laranjas que colhi enquanto me tento recordar do que aconteceu. Mas afinal o que aconteceu? Enquanto vasculho inutilmente o meu cérebro em busca de respostas, sou interrompido por um leve puxão na túnica. Ao voltar-me uma pequena rapariga esbugalha dois mares na minha direcção. As suas vestes rasgadas demonstram uma vida privada de luxos e talvez repleta de maus-tratos. Estico-lhe uma laranja… a sua reacção é nula. Encolhendo os ombros, retomo novamente a esguia estrada. Novo puxão e reencontro os mesmos olhos abertos parvamente. Desta vez, a sua pequena boca abriu-se levemente pronunciando um simples e intrigante: “eram teus amigos?”. Após uma resposta afirmativa, comecei a bombardear a rapariga com perguntas sobre o seu paradeiro. Apesar de não saber onde se encontram, afirma que os homens que os levaram eram soldados da guarda da cidade. Aparentemente a nossa chegada aqui havia sido previamente alertada. Algo voltava a não bater certo. Se partimos de Faro em relativo secretismo, como foi possível armarem-nos uma cilada tão prontamente? Menciono o acontecido pouco tempo antes enquanto dormia, procurando encontrar respostas a algumas perguntas das muitas que deambulam na minha mente. A resposta, bem distante daquela que esperava, é um sorridente “vou-te ajudar!”. Encaminhamo-nos para a cidade. Pelo caminho, falamos alegremente, em parte devido à excelente disposição de tão viva miúda. Aparentemente abandonada à nascença, Maria fugiu de um convento no norte da península. Cristã de origem, foi deambulando rumo ao sul, roubando para sobreviver, em busca de riqueza e paz. Afirma apenas ter visto os guardas levarem o resto do grupo, mas a sua alma sabe mais do que a sua boca fala. O seu infantil secretismo revela a incompreensão de algo visto. Sei que independentemente do eu seja, haverá palavras que o expliquem. Talvez ainda não se sinta inteiramente à vontade para falar nisso. Decido respeitar a sua posição, apesar de saber que vai atrasar a compreensão de muitas coisas passadas. Pouco falta andar para chegarmos à patrulha da ponte, quando lhe acabo de contar todas as minhas aventuras ao lado de Yusuf. Os seus brilhantes olhos e o sorriso rasgado demonstram admiração. Paramos a uma distância segura para combinar a melhor maneira de não levantar suspeitas. Poeta e aprendiz aparenta ser uma razoável desculpa para entrar na cidade e os papiros que trago comigo servirão de prova. Decido rasgar um pouco a roupa para que a discrepância de vestuários não seja tão evidente. Poucos minutos volvidos, e encontramo-nos frente a frente com os guardas. Ocupados com todos os homens que aparentam porte de guerreiro, deixam-nos passar sem muitas perguntas. É fácil discernir que andam à procura de alguém. Conhecendo esse alguém, agradeço pela primeira vez na vida a Alá, o facto de me terem avaliado mal.

quinta-feira, junho 15, 2006

10º Capítulo - Confusão

Mantivemo-nos em silêncio durante quase todo o caminho desde que atravessámos o belo Guadiana. Huelva sobressai no horizonte agora rasgado pela claridade que antecede o nascer do sol. Os tons alaranjados dão à paisagem uma sensação de calma, invulgar por estas paragens. Parece que a guerra não passa de algo inventado apenas para fazer esquecer a beleza do mundo. Com aprovação de todos, decidimos descansar umas horas, enquanto o sol não está alto. Os cavalos bebericam no regato que corre a pouco metros de nós, enquanto a leve brisa agita a erva onde nos sentamos. Pássaros voam alegremente, como se as batalhas já travadas naqueles campos nunca tivessem acontecido. É incrível apercebermo-nos da efemeridade dos actos humanos, de como um dia o Homem deixará de fazer parte deste cenário mas tudo o resto continuará a existir. Corre-me na mente a probabilidade de sermos o único ser vivo com a capacidade de se extinguir a ele próprio. Envolto em pensamentos, adormeço. Acordo com o sol a bater-me fortemente na cara. Com os olhos ainda embriagados de sono, busco pelos meus companheiros, mas de nada me vale. Desapareceram… e com eles os cavalos. Sinto uma forte frustração enevoar-me o raciocínio. Sento-me para pensar. Perscrutando o local onde tinha adormecido, vejo uma bolsa de couro. Num dos lados, consegue-se ler “Abdul” gravado a letras douradas. Pelo que me lembro da nossa curta viagem, Abdul é um jovem alto, rigidamente marcado pela guerra que apresentava uma profunda cicatriz no rosto, proveniente de alguma batalha antes travada. No seu interior, algumas moedas de ouro e outros pequenos pertences que jamais alguém deixaria para trás. O corrupio desenhado na erva demonstra mais gente do que aquela com quem vim. Algo se passou enquanto dormia… algo estranho, que sinceramente não consigo compreender. Estou certo de que fizeram barulho! Como foi possível não os ouvir? Estaria demasiado cansado? Se partiram sem mim, porque o fizeram? Se alguém teve aqui e os levou, porque não me levaram também? Não aparento eu ser um homem de armas? Sinto a cabeça a andar à roda com tantas perguntas sem resposta. Toco o meu amuleto procurando fugir a toda a confusão que me inunda. Vasculho a área envolvente à procura de outras pistas… mas não consigo encontrar mais nada. Toda a calma que me rodeia torna-se enervante. Até a minha cimitarra levaram! Sete moedas de prata são o único peso da minha bolsa. Após colher algumas laranjas, faço-me sozinho à estrada. Apenas Alá saberá as aventuras que me aguardam.

sexta-feira, maio 26, 2006

9º Capítulo - Caminho para Huelva

A noite aparenta ser longa e o caminho nada fácil. Como o vento, corremos velozmente por entre belos pomares e searas. Os vultos das amendoeiras acompanham-nos durante grande parte do caminho. Dada a urgência da missão, apenas podemos fazer pequenas pausas pelo caminho. Teremos tempo de descansar já em território inimigo. Do grupo, apenas um dos cavaleiros vai a meu lado, tentando manter conversa. É baixo e robusto; “Pequeno touro” é como lhe costumam chamar. Almorávida de nascimento, mas almóada de espírito, agradece-me várias vezes pelo facto de ajuda ter chegado. Segundo os seus relatos, a Península encontra-se decadente faz já uns anos. O grande reino do Grab-Al-Andaluz terminara ainda ele era criança. Com a queda do Xeque, a separação do reino em califados foi imediata. Os califas, sedentos de poder, nem o próprio sangue pouparam. “Árabes contra árabes”, conclui triste. De facto, é exactamente esse problema que assola o Al-Andaluz e que nós tentaremos explorar. O ódio entre califados aumenta de dia para dia, tanto enfraquecendo almorávidas como favorecendo cristãos. Deixando a conversa, procuro no horizonte um sinal do caminho que devemos seguir. Um reflexo amplo, mas ténue vai sobressaindo ao longe. Começamos a descansar os cavalos que já muito cavalgaram desde que partimos de Faro. A noite continua escura, mas bem estrelada. Fomos detidos pelo Guadiana; grande rio, pelo que aparenta. A única forma de o atravessar é numa barca de um veterano de guerra. Ex-combatente na grande frente leva agora uma vida pacata nas margens deste rio. Creio que não causará grandes problemas e em troca de umas moedas de ouro, estou certo que o seu silêncio e o meio de transporte serão comprados. Enquanto atravessamos calmamente o rio, vamos combinando locais para repousar. Huelva, uma cidade a pouco mais de umas horas de corcel, será o nosso primeiro local de paragem. Teremos de nos fazer passar por almorávidas, o que no fundo não é tarefa assim tão árdua. De Huelva partiremos para Cadiz, um pouco mais a sul. E com sorte, conseguiremos atingir Gibraltar ainda antes do final do segundo dia de viagem. Os pobres animais que nos carregam terão de ser trocados em ambas as cidades, de forma a não termos de fazer paragens extra. Em pouco tempo, o agradável e relaxante som da água a correr alegremente pela barca dá lugar ao rude som da areia que roça o casco. A partir daqui, apenas Alá nos poderá proteger.

domingo, abril 16, 2006

8º Capítulo - O inicio de uma demanda

Um jovem ensanguentado entra na sala onde nos encontramos. Carregado a ombros por dois guardas, vem pedir auxílio por Gibraltar. Yusuf ainda se encontra ocupado com o governador, mas a sua conversa terá de ser adiada para mais tarde. Pelo que consigo ouvir da outra sala, o jovem batedor fala de um poderoso ataque surpresa à fortaleza, por parte de forças vindas do norte de África. O desfecho da batalha era tanto para ele como para nós desconhecido. Como um relâmpago, Yusuf dirige-me a palavra. Quer que encabece um grupo de batedores para averiguar tanto quanto possível da batalha. Acenei afirmativamente, enquanto olhava desconfiado para o jovem batedor. Não conseguia compreender o motivo do pedido de auxílio ter vindo parar a Faro. Estou certo de que haverá cidades mais próximas de Gibraltar… algo não está certo, mas terei tempo para investigar. Enquanto arrumo os bens a levar, Salem estica-me a mão, soltando um pequeno amuleto em tons lápis-lazúli. Afirma ser uma pequena protecção contra o mal e que apenas os puros de coração o sabem usar. Recuso a oferenda delicadamente mas de nada me vale. Salem parece determinado que eu leve este pequeno colar. Guardo-o na bolsa enquanto me atarefo a preparar as rações para a viagem. Viajaremos ligeiros para não cansar muito os cavalos, razão pela qual não devemos levar nada para além da comida e da cimitarra. Pouco falta para o crepúsculo que antecede a noite. No exterior do palácio, seis nobres cavalos aguardam os seus cavaleiros. Somos poucos em número, mas vejo no rosto daqueles que me acompanham que não são novos neste tipo de aventuras. As marcas que alguns ostentam com orgulho aparentam ser resultado de anteriores incursões em território inimigo. Recebemos pouca informação por parte do batedor ensanguentado. Torna-se complicado prever a localização de tropas almorávidas, sabendo do seu constante movimento para as frentes de batalha com os cristãos. Yusuf apressa-se a entregar-me um pergaminho. No caso de vitória, deverei entregar estas informações ao mais graduado oficial almóada. Sinto o receio atormentar-lhe o coração, e compreendo-o perfeitamente. Enquanto somos presenteados com os milhares de tons que fazem prever uma noite limpa, partimos calmamente em direcção à muralha exterior. Somos acompanhados por inocentes crianças que nos incentivam. Pouco antes de abandonar a cidade, olho para trás e desejo não a ter de abandonar. Com o braço no ar despedimo-nos daqueles que ficam para trás, partindo rapidamente a galope em direcção à escuridão e ao desconhecido. Tocando o amuleto, sinto conforto. Alá será protector nesta nossa louca viagem.

domingo, março 26, 2006

7º Capítulo - Faro

Acordo sobressaltado. Um frenesim de vozes enche o ar que rodeia o navio. Salem entra na camarata eufórico. Finalmente chegámos a Faro. Levanto-me num ápice, tamanha é a minha ânsia de conhecer gente nova. Cá fora vislumbro um novo mar, um imenso mar de gente diferente. Comerciantes almóadas, com imensas mercadorias do norte de Africa, fazem o seu negócio em terras por nós pouco conhecidas. Yusuf emerge enérgico do seu camarote. Também ele se sente contagiado pela doce melodia vocal de uma nova cidade. Ao descermos a rampa, que nos dá acesso ao cais, apercebemo-nos da comitiva que nos aguarda. O governador e a sua guarda aproximam-se agilmente parando a poucos metros de Yusuf. Após poucas palavras e alguns cumprimentos, seguimos escoltados para o palácio. No rosto dos soldados que nos rodeiam consigo distinguir alivio. A desorientação governamental fez com que os estados muçulmanos perdessem uma grande porção de terra para os cristãos, levando à crescente inquietação popular. A chegada de Yusuf à península leva a que o povo volte a acreditar na paz e serenidade no Al-Andaluz. Enquanto caminhamos, vou observando as ruas e as suas casas. Caiadas, casas geométricas estendiam-se ao longo da cidade, pontuadas por mesquitas. Perto do centro da cidade, um único monumento cristão. É um sinal harmonioso demonstrativo da tolerância religiosa, sempre respeitada na península. É de certa forma uma maneira de cativar os cristãos a permanecer em terras a eles conquistadas. Yusuf conversa durante quase todo o caminho com o governador. Salem, pelo contrário, delicia-se com a beleza das mulheres desta cidade que com a sua exótica presença nos presenteiam. Grupos embriagados de mercenários cantam não muito longe daqui. Ao fundo da rua surge o palácio, altamente ornamentado e de estrutura ampla. Os grandes pórticos enunciam a grandiosidade que outrora tivera esta cidade. Música acompanha as nossas passadas ao longo da sala principal. A alegria contagiante aconchega-nos a alma, como se estivéssemos novamente em casa. É bom estar com esta gente. As conversações entre Yusuf e o governador parecem durar horas. Enquanto um dos guardas rói as unhas, o outro parece não saber que parte da veste lhe faz mais comichão. Todos nós procuramos algo com que nos entreter. O ambiente passou de calmo a “de cortar à faca”. Uma simples palavra pode mudar o rumo dos acontecimentos, e aparentes amigos voltam a ser novamente inimigos. Alá premiará a nossa paciência.

domingo, março 05, 2006

6º Capítulo - Interminável mar

Partimos com o raiar do dia. Penetrando a matinal neblina, o alegre aroma da maresia toca-me a alma. Ainda agora a deixamos e já lhe sinto saudades. “Rumo à Europa” exclama aventurosamente Yusuf. Sinceramente, receio esta nova aventura. Enquanto vacilamos de um lado para o outro, contrariando o balançar do barco, podemos contemplar o enorme mar Atlântico. Gaivotas acompanham-nos planando sobre o mastro. Avizinha-se uma longa jornada e todos procuram com que se entreter. O barco apresenta um comprimento reduzido para combate, mas os esforços de Amir permitem agora uma viagem sem grandes percalços. Yusuf parece irrequieto. Passeia-se de um lado para o outro do barco, tamanha é a sua preocupação. Bem cedo, despediu-se de Amir e Al-Amiri, como se jamais os voltasse a ver. Alá decidiu separar o que um dia uniu. Yusuf teme um eventual reforço da praça-forte de Gibraltar, durante a travessia dos seus amigos, reforço esse que poderia comprometer toda a operação, pondo em risco as suas vidas. Com o mar suave como a seda, marinheiros alegram-se no convés, cantando histórias de gloriosas batalhas por eles travadas. As princesas berberes rodopiam freneticamente ao som da música... que magnifica visão. Entre a dança e a cantoria, todos querem saber dos grandes feitos de Yusuf. Por momentos, a calma reina no nosso pequeno navio. Yusuf pode ser um grande guerreiro, mas é também um hábil contador de histórias, e neste caso, provavelmente o melhor que se encontra a bordo. Juntamente com Salem, Yusuf narra as suas conquistas no Egipto, Tunísia, Argélia e Marrocos, tanto as pacificas como as mais sangrentas. No meio de mil aventuras e tentando mostrar-se desinteressado, o capitão guia-nos rumo a norte, para mais perto da costa do Grab Al-Andaluz. Ao longe, começo a distinguir enormes florestas, presenteadas em curtos intervalos por vivazes pomares de laranjeiras. Compreendo as intenções de Yusuf em querer controlar a península. Ao contrário do norte de Africa, estas terras são ricas e deveras bastante produtivas. Os rios são numerosos e pela sua foz, aparentam ser imensos. De sudoeste, os ventos marítimos trazem humidade, tornado esta terra fresca e temperada. Caminho para a proa, procurando vislumbrar algo mais no horizonte. Sem que me aperceba, Salem pára a meu lado. Num tom divagante, fala-me das muitas civilizações que habitam e disputam o Grab, das magníficas fortalezas e poderosos castelos, de vastas planícies e altas montanhas, florestas imensas e numerosos povoamentos, de animais e plantas jamais vistos. Enquanto a noite se aproxima, dou por mim a sonhar acordado, imaginando todas as coisas que amanhã espero ver estando certo porém, que Alá permitirá que as veja.

sábado, fevereiro 11, 2006

5º Capítulo - Separação

O tempo passa, e com ele passa também a calmaria. Notícias do desmembramento do Grab Al-Andaluz chegam a Ceuta. Correm boatos de que o progressivo desentendimento entre almorávidas levou à formação de pequenos califados na península. Leio a frustração estampada no rosto de Yusuf. Ele reconhece que o fragmentar dos seus inimigos é prejudicial à causa de Alá. Fragilizados, os califados serão tomados pelos cristãos num abrir e fechar de olhos. Como se não bastasse, a sua mediocridade leva-os a guerrearem-se constantemente, não tomando atenção aos inimigos do norte. Yusuf sabe que tem de tomar uma decisão o mais depressa possível. É desejo de Alá que Šanta Māria al-Hāarun, conhecida por Faro, seja tomada por Yusuf e Salem, enquanto que Gibraltar ficará entregue a Amir e Al-Amiri. Yusuf permanece em meditação durante dias. Compreendo que a sua separação de dois dos seus melhores amigos seja um golpe bastante duro mesmo para um cão de guerra. Decidi partir com Yusuf e Salem dentro de dias, numa secreta missão diplomática a Faro. Começam os preparativos para as viagens: carregamentos de gado e cereais, marfim, ouro e diamantes, juntamente com algumas princesas berberes, serão oferendas certamente bem recebidas pelo califa almorávida. Por outro lado, Amir e Al-Amiri têm uma missão de cariz militar. Gibraltar é uma fortaleza importante nos planos de Yusuf. A uma pequena distância de Ceuta, Gibraltar é a ponte para uma ofensiva a larga escala por parte dos almoadas. Deverá ser tomada de noite, com o desembarque das tropas a oeste da mesma. Sabe-se que os constantes conflitos entre califas têm requisitado muitos homens para a frente de batalha e como tal, espera-se que Gibraltar possa ser assaltada desprevenida. As movimentações militares começam em peso, com grandes quantidades de madeira e armas a serem levadas para o porto. Amir é um bom comandante e Al-Amiri um estratega nato. Rumarão direitos a Gibraltar em navios mercantes, construídos de forma a não levantarem suspeitas. Yusuf nomeia como governador Yaqub, seu amigo de longa data. Yaqub bateu-se muitas vezes em batalha ao lado de Yusuf, apesar de não passar de um letrado. É um homem de bom coração que não olha a meios para punir injustiças. É ele que tem como função manter a logística dos exércitos que serão enviados para a península e posterior comércio com as futuras colónias. É decretado um dia de festa em homenagem àqueles que partem... e a noite avizinha-se calma e alegre. Olhando as estrelas, lembro-me dos tempos em que passava as noites entregue à poesia e à música, deliciando-me com belas mulheres e bom vinho. Amanhã partirei, e apenas Alá sabe o que nos espera.

domingo, janeiro 15, 2006

4º Capítulo - Paz

Regressam os tempos de paz. Alá é grande ao permitir o nosso descanso. Yusuf aceita todas as rendições almorávidas de forma justa, permitindo a sua permanência em Ceuta. Ele vê esta cidade como um ponto crucial e como tal deve ser reconstruída e militarmente fortificada, contando para isso com a colaboração dos seus antigos residentes. Ao longo de meses, mestres-de-obras chegam a esta cidade carregados de matérias-primas, na esperança de que com a permissão de Yusuf, possam aqui ganhar algum dinheiro. Através das rotas com o Oriente o comércio floresce. Caravanas chegam diariamente fornecendo a cidade com bens essenciais como mel, vinho, tecidos e cereais. No porto, agora aumentado, ergue-se uma estátua de Amir em homenagem à sua gloriosa vitória sobre a frota almorávida. Não se vê miséria... os fracos são amparados pelos fortes. A mesquita é reconstruída usando o mais branco mármore e artistas esforçam-se por concluir os murais de azulejos. As habitações são reparadas e as ruas arranjadas. A muralha, esmagada pela ofensiva de Yusuf é aumentada, permitindo assim mais espaço para o crescimento da cidade. Terras são roubadas ao deserto de forma a desenvolver a agricultura. Jamais Ceuta viu tamanho movimento e variedade de raças e culturas. Do norte de Africa, carregamentos de cacau, marfim, ouro e diamantes enchem os olhos de quem aqui vive, embelezando e enriquecendo esta nobre cidade. Os jardins são imensos, verdejantes e cheios de vida. Do mar, os pescadores trazem infindáveis espécies de peixes. É, deveras uma bela cidade... brilhante, demonstrando todo o seu esplendor. No centro, logo ao lado da reconstruída mesquita, encontra-se o palácio do governador. Nele, Yusuf passa os seus dias, tanto administrando a cidade como entregando-se às artes. A riqueza da cidade atrai poetas, pintores, escultores e outros artistas em busca de algum dinheiro por aquilo que melhor sabem fazer. Vivem-se tempos doces, em que a memória dos tempos almorávidas cai em esquecimento, ofuscada pela opulência deste jovem império.
Aproximam-se novos confrontos... disso tenho a certeza. A ambição de Yusuf não permitirá que nos mantenhamos aqui por muito mais tempo. Resta-nos aproveitar as boas graças de Alá.

sábado, janeiro 07, 2006

3º Capítulo - Queda de Ceuta

Já se passou um mês desde o início do cerco a Ceuta. O constante bombardeamento da cidade reduz a vontade de lutar de quem ainda tem força para segurar uma espada. Têm sido dias duros para muita gente dentro daqueles grandes muros de pedra. O bloqueio do porto por parte da frota de Amir, comandante da armada almóada faz com que os mantimentos escasseiem. Qualquer tentativa de abandono da cidade é punida com morte, enquanto o governador não a entregar. As tropas de Yusuf começam a ficar irrequietas. Homens talhados pelo sangue e pela guerra não se contentam com a paz. O próprio Yusuf parece preocupado... uma grande força almorávida foi vista a sair de Granada em direcção a Ceuta. A cidade deve ser tomada antes da chegada de reforços. Será uma catástrofe caso tal não aconteça. A brisa da tarde trás o aroma do mar, uma leve maresia misturada com um pérfido cheiro a queimado. Salem e Al-Amiri falam com as tropas. Os aríetes estão prontos há dias, as catapultas têm as cordas bem secas e os trebuchets já massacram a cidade desde o primeiro dia de cerco. É hora! Al-Amiri monta o seu cavalo e parte. Salem reúne os seus homens e distribui as tarefas para a ofensiva. Escadas e grandes protecções em verga para os homens da frente, atrás os aríetes apoiados por arqueiros e por fim as catapultas. Yusuf monta o seu cavalo, passa uma breve revista ás suas tropas e dirige-se para a retaguarda. É de lá que comandará todas as operações. O tempo passa sem as tropas se mexerem um metro que seja. A ansiedade percorre as fileiras enquanto a ordem não for dada. Um cavalo branco percorre as dunas à direita de Yusuf... é Al-Amiri com boas novas: Amir começou o ataque ao porto. Como uma onda num mar tempestuoso, a notícia espalha-se... não é necessária qualquer ordem. Até o mais inexperiente sargento das fileiras almoadas sabe o que fazer. As catapultas lançam as suas cargas contra as muralhas desfazendo tudo e todos. Salem, protegido pelas protecções leves mas resistentes de verga, empenha-se por chegar junto das muralhas. Ao seu lado, toda a linha da frente avança, mas não sem haver perdas. Os aríetes carregam desenfreadamente em direcção à porta. Engenheiros apressam-se a elevar as escadas contra as muralhas, escadas essas que permitirão a sua subida do exército de Yusuf. Setas voam em todas as direcções apanhando os mais desprevenidos. Os aríetes estão à porta... óleo é atirado das torres queimando os homens que os manobram. A luta é frenética e sangrenta. Yusuf e a sua cavalaria aguardam enquanto na muralha os seus homens lutam pelas melhores posições de combate. A porta cede e Yusuf sorri. Ao lado de Al-Amiri, carregam sobre os defensores, entrando pela cidade. O porto já caiu após grande esforço de Amir. Ceuta cairá ainda hoje. Alá abençoou este glorioso dia.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

2º Capítulo - Negociações falhadas

O sol cresce no horizonte... Yusuf aguarda que ele suba um pouco mais para também ele servir de arma. Para espanto de muitos, a cavalaria abandona o acampamento ainda cedo. De que servem espadas contra as muralhas da praça-forte? Sente-se a inquietação por entre os soldados. Sem cavalaria, estão limitados a ataques lentos e morosos, que eventualmente custarão muitas vidas. Morde-se mais um pedaço de pão, e bebem-se as últimas gotas de chá enquanto o tempo custa a passar. Com os trebuchets ainda inacabados, somente o ataque directo é opção. Sem aviso, abre-se o grande portão de Ceuta saindo dele centenas de soldados almorávidas. Apercebendo-se da ausência da cavalaria almóada, os defensores ganharam a confiança necessária para sair da sua toca e travar batalha a céu aberto. Como peças de xadrez, ambas as tropas se dispõem no campo de batalha. A adrenalina dispara enquanto se fitam nos olhos. Retesam-se os arcos, desembainham-se as cimitarras. Yusuf, escoltado pela sua própria tropa pessoal, negoceia com o general inimigo. O tempo passa bem devagar. O seu retorno traz consigo a frustração estampada no rosto. Ninguém odeia mais a ideia de um confronto desnecessário que Yusuf, mas a lógica deve ser posta de lado quando Alá requisita os nossos serviços. A sua cimitarra brilha esplendorosamente acima da sua cabeça como se o próprio espírito de Alá estivesse contido nela, ordenando o início do ataque da artilharia. Com o sol de frente, os almorávidas já começaram a sua marcha... Sombras gigantes atravessam o campo de batalha caindo pesada e imprevisivelmente sobre as fileiras almorávidas. Juntamente com as catapultas, centenas de flechas cortam o ar penetrando as leves armaduras de couro. De um lado e de outro, arqueiros apressam-se a lançar a morte sobre os soldados inimigos que cegamente correm para o confronto. Yusuf está em desvantagem de números mas ele bem que sabe disso. O chão começa a vibrar... Um barulho pesado faz tremer a mais branda alma. Como um trovão, uma centena de cavaleiros rasga a linha de arqueiros almorávidas. Um ténue sorriso é esboçado pelo rosto de Yusuf. Montando o seu corcel, vê no campo de batalha a reviravolta esperada. As unidades de soldados almorávidas estão sem o apoio dos seus arqueiros, esmagados e rechaçados pelos homens do general Al-Amiri. Na frente da batalha Yusuf e Salem, irmãos de armas, lutam lado a lado com as suas tropas, desmembrando a força inimiga como se o poder dos céus estivesse com eles, enquanto que Al-Amiri impede qualquer fuga almorávida para a cidade. A morte espalha-se pela areia... Com a queda do comandante almorávida, cessa a batalha. Os gritos de vitória ecoam nas muralhas. É possível vislumbrar o terror dos que nela se protegem da esmagadora ira de Yusuf. No ar paira a calma que antecede o cerco.

terça-feira, dezembro 20, 2005

1º Capítulo - Preparativos

Finda uma tarde quente... sente-se no ar um ténue aroma a sangue. Faltam cerca de quinhentos metros para se alcançar a cidade de Ceuta e a primeira onda de defesa almorávida já se encontra desmembrada. Yusuf dirige um exército eficiente de mercenários nómadas, várias unidades de cavalaria, engenheiros e médicos. Com ele, viajam poetas e escritores que registam os feitos para posteriormente serem narrados. A noite aproxima-se fria, suavemente nervosa. Nas tendas, os soldados reviram-se esperando, por minutos, adormecer. Vozes roucas ouvem-se na escuridão; sentinelas de um campo à beira de uma batalha. Chega-se a questionar a sanidade de Yusuf, acerca da decisão de tomar Ceuta. Todos acham uma loucura, mas sente-se já tão próxima. Os incontáveis tesouros dos comerciantes... o desejo pela riqueza do comércio. Ceuta é o limite do mediterrâneo melhor conhecido. Para oeste, abre-se o grande estreito dando lugar ao infindável atlântico. É a Ceuta que chegam os melhores produtos da africa ocidental. Como extravagante fonte de rendimentos, é necessário tomá-la. O bater dos martelos anuncia o começar do derradeiro dia. Os engenheiros acordaram mais cedo com o objectivo de montar o equipamento de cerco. Catapultas, trebuchets, escadas e aríetes estão prestes a ser terminados quando o primeiro raio de sol começa a espreitar no horizonte iluminando o topo da torre da mesquita. Lentamente, silhuetas surgem nas muralhas... soldados que sempre lá estiveram, olhando, controlando o movimento das tropas inimigas. Pergunto-me como se sentem eles; olhando para um enorme exercito surgindo das brumas, esperando pela ajuda almorávida do grab al-andaluz, vulgarmente conhecido como península ibérica. Yusuf acorda enérgico... percorre a estrada improvisada até à tenda cozinha onde se deve encontrar com os seus dois generais de campanha. Soldados emergem lentamente das suas tendas caminhando, ainda embriagados de sono, para a última refeição antes da batalha. Afinal, de que serve um exercito exausto e faminto? Alá compensará o tempo perdido com uma ilustre vitória, penso eu.

domingo, dezembro 18, 2005

Prologo

Lisboa é Lusa... assim se canta pela nação. Falam de um cavaleiro, de seu nome Martim Moniz, que deu a vitória aos filhos de Deus. Por toda a parte se contam histórias fantásticas dos feitos dos que lutam na linha da frente. Falta pouco para Portugal ser inteiro... a partir do Tejo estendem-se vastas planícies de searas ocupadas pelos Almorávidas. Cruzados ingleses são acolhidos de braços abertos, engrossando a força militar de D. Afonso Henriques. A fragmentação islâmica é evidente e prevêem-se grandes batalhas a sul do grande rio. Longe, os Almoadas expandem o seu poder e preparam-se para ocupar os califados almorávidas na península ibérica. Abû Ya'qub Yûsuf é o grande mentor, líder espiritual e militar dos almoadas, assim como os seus poemas encantam as cortes islâmicas. Homem dado à cultura, vê na península ibérica um reino que é dele por direito, dado por Alá. As suas conquistas no norte de Africa aumentam de dia para dia, expandindo o seu já grande império. Uma cruz foi traçada no mapa... os dias de paz aparente estão para acabar...

domingo, dezembro 11, 2005

Regresso

Sinceramente não sei porque não escrevo. Se é algo que gosto, porque não o faço? Será a escrita apenas mais uma forma de vicio? Sei lá... Qualquer das formas, vejo que uns minutos por dia, não custam nada a ninguem e até se criam algumas coisas engraçadas. Isto tudo para dizer... Vou recomeçar a bombar neste velho blog. Imaginem uma história tipo Senhor dos Aneis, mas mais fixe, cheia de magia como o Harry Potter (?), e quiçá, ultrapassando-o... lol! Pareço daqueles manos que andam a fazer propaganda a uma novela qualquer... Isto dito por outras palavras é: Brutal! Uma aventura cheia de acção e mistério. Vai ser lindo... já a desenho na minha mente; imagino o que sairá disto! Tentarei fazer um capitulo todas as semanas mas, e de qualquer das formas, se não o fizer, chamem-me à atenção. Tenho de aproveitar aquilo que me deram... a minha imaginação e criatividade. Conto com o apoio dos meus antigos leitores para desenvolver este blog para além do racional... ultrapassar o inteligivel e levar "Os jovens leitores" (sempre quis dizer isto!) a um mundo de fantasia. Tipo Alice no Pais das Maravilhas... mas sem as drogas que o Lewis Caroll mandava... uma lagarta a fumar... xi... onde é que já se viu... lol!