sexta-feira, agosto 22, 2008

Overseer

Gosto de ver, de observar…
De sentir o ar acariciar-me o rosto.
Gosto de ver toda a gente passar,
E seguir no sentido oposto.

Prefiro ficar a um canto,
Ver de longe, invisível.
Ler até onde vai o encanto,
Do povo que passa, insensível.

Gosto de pensar sozinho,
Ir longe por um momento.
E quando volto, adivinho…
Sei qual é o teu tormento.

I am the Overseer!

Coisas

Não me lembro de escrever,
De sentir a mente fluir livremente.
Tenho-me ofuscado com ideias loucas,
Sentimentos tristes que me ferem…
Que esmagam os meus pensamentos.
Luto por ser mais um perfeito,
Por ser mais um exemplo,
Por um amar melhor que o dos outros.
E no fundo,
Quando paro para respirar,
Sou apenas mais um a lutar,
A combater o dia-a-dia com alento.
Para um dia de manhã poder acordar e dizer…
Creio que afinal valeu a pena!

domingo, agosto 17, 2008

21º Capitulo - O segredo de Maria

Instala-se o nervosismo entre os presentes. É atroz a forma como o inimigo mina as relações que, por ténues que sejam, apresentam os mesmos objectivos. No meio de tanta berraria sinto o peito a arder. Sei que a criatura não foi longe... posso senti-la perto... bem perto. O latejar do amuleto que trago no peito torna-se mais intenso. Maria! Creio que Maria ainda se encontre no quarto e o facto daquele "Batedor" estar à solta não me deixa minimamente confortável. Enquanto os soldados se encarregam de libertar as suas frustrações, numa acesa troca de palavras e insultos agora mediados pelo governador, decido ir investigar o andar de cima. Para além de uma agradável brisa que desce pelas escadas, nada aparenta estar mal... Pouco mais acima, começo a ouvir um som abafado de alguém que tenta gritar e não consegue. Apenas um pensamento me ocorre: "Apanhou a Maria!". Corro direito ao seu quarto, com a cimitarra desembainhada. A sua porta está bloqueada. Em força, tento abri-la, desesperadamente. Os sangue flui-me pelo corpo a uma velocidade vertiginosa. Sinto-me carregado... e explodo com um golpe tenso e frio na porta que me separa do que que agora me parece ser uma intensa luta. Pedaços de porta são projectados em todas as direcções, tal raio que a atravessara. No interior do compartimento, Maria tenta libertar-se do Batedor que havíamos capturado. Aproximo-me cautelosamente, não querendo que o monstro se sinta tentado a fazer-lhe mal. O que parecia ser uma pequena brisa, que corria desde a janela aberta, é agora uma ávida corrente de ar que me leva a semicerrar os olhos. Oiço o som de vidro a quebrar e no local onde se debatiam duas das criaturas mais misteriosas que conheço, sobra apenas uma delas e um amontoado de vidro, negro... vazio. Maria transpira fortemente... a sua fronte demonstra um cansaço extremo, de quem se debateu arduamente com a morte. Amparo-a e peço-lhe para se sentar. Da sua boca, um "Tenho algo para te dizer..." parece-me longínquo e ofegante. O som de metal a bater no chão do quarto termina-lhe a frase, enquanto a sua cabeça descai para o encosto do cadeirão. Decido deixa-la a descansar enquanto investigo o som que ouvi. No chão, as mais belas laminas preenchem duas adagas nobremente trabalhadas. Creio que foi com elas que Maria se livrou do Batedor... mas porque estaria ela com armas destas? Decido guardar as adagas comigo. Estou certo que Alá me dará as respostas brevemente.

terça-feira, agosto 05, 2008

Neve

Afiada como uma lança,
Talvez pena, de tão leve,
Os espíritos irados amansa,
E a alguém, nada deve.

Até onde a minha vista alcança,
Por um momento deveras breve,
Continuais com a vossa dança,
Fria e branca, sois neve.

sábado, junho 14, 2008

Hail to Richard

Hehe... como já devem ter reparado, há uma nova contratação para este blog. Amigo à bastante tempo, e instruído na nobre arte da escrita, esta nova aquisição certamente irá dar mais vida a este enfadado lugar.

Espero que a sua escrita vos cative como me cativou a mim.

Cumprimentos

Shuri Kata

A quem já não está...

Sente o vento mudar,
O desabrochar...
O abrir do momento.
Sente o pranto no ar,
Por alguém que se foi,
Tamanho tormento.

Vê quantos amigos a chegar,
Quantos deles imemoriais,
Outrora perdidos no tempo.
E quantos conseguem apoiar,
Na mais íngreme miséria,
Dar a quem sofre algum alento?

São tristes sentimentos,
Um quanto de dor...
Tamanha amargura.
Ou seremos nós lentos,
Em compreender a vida,
Que pouco ou nada dura?

sábado, janeiro 26, 2008

20º Capitulo - Antigas inimizades

Todos se apresentam assombrados com o número de eventos que Alá tem reservado para nós, simples homens. Decidi sair da casa do governador, e apanhar um pouco de ar para aclarar as ideias. No fundo, a ideia de que aquelas cristalinas criaturas podem atacar a qualquer momento deixa-me irrequieto. Já na rua, sinto ondas de calor fluir pelo meu corpo, como se no meu inconsciente soubesse que algo de muito mau está a caminho. Respiro fundo e tento acalmar-me. Abdul também não se encontra muito descontraído. Vejo-o a desenhar algo sobre algumas folhas de pergaminho... muralhas, tropas... Creio que a sua presença no exterior seja reflexo da mesma ansiedade que me assola. O pequeno exército, que deverá proteger esta cidade, está cautelosamente colocado nas suas altas e sujas muralhas, aguardando. Sinto que, de certo modo, grande parte dos jovens que se encontram lá no alto, desejam que a paz e o conforto regresse à sua terra... mas temo que ainda irão passar por duras provações antes dos seus sonhos se concretizarem. Sinto o sol bater-me na cara como uma bênção... um pequeno sinal de que Alá está connosco. Rasteio as muralhas à procura de algo que evidencie problemas, mas os problemas encontram-se mais perto do que previra. Tulfah grita a plenos pulmões com Teht. “Onde é que ele foi?! Procura-o na tua pedra! Ou isso só permite que fales com eles, meu miserável?!” A confusão estava gerada no interior da casa do governador. Abdul e eu entreolhamo-nos e decidimos acudir àquela gritaria. Quando entramos, qual é o nosso espanto ao ver que a criatura, que teoricamente estava tão bem amarrada, simplesmente desapareceu. Do outro lado da sala, Tulfah e Teht empurravam-se violentamente, enquanto o governador tentava desesperadamente separar os dois sem ser agredido. Não creio que seja possível alguém, ou criatura alguma, escapar a tamanha prisão. “E ninguém viu como a criatura desapareceu?” pergunto inocentemente. A briga cessa, mas as acusações começaram de imediato. “Foi este miserável... tenho a certeza. Eles falam com ele através daquela pedra. Nunca se deve confiar num almoada!” grita Tulfah. Teht está claramente furioso... ouço-o pronunciar palavras iradas enquanto se afasta. Mais uma astuta jogada do inimigo. Como se atrevem a brincar com a nossa mente...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Mudança de mãos...

Boas pessoal... queria apenas informar que acabei de adquirir este blog a mim mesmo. Tenho de dinamizar isto porque me parece que o jovem nis_latromi andava um bocadinho em baixo de forma.

A narrativa vai continuar, porém pontilhada com um pouco de outras coisas... isto de direccionar o conteúdo dos blogs não dá com nada.

Saudações aos resistentes

Shurikata

domingo, outubro 14, 2007

19º Capitulo - Chegada

O som emanado pela estranha criatura assombra a mente de todos os presentes na sala... grunhidos repetitivos que nos alertam para algo... mas para o quê? Teht entra na sala de sobressalto. Eufórico, nem se apercebe da criatura que se encontra na sala, tão embrenhado estava no seu amuleto. "Vejam, vejam!!!" exclamava enquanto o rodava. Depois de tantas horas de volta de uma criatura que emitia sons vindos de um outro mundo, procurámos algum consolo naquela pequena pedra que Teht carregava com ele. "Por Alá!" gritou Abdul quando arcaicamente conseguiu ler o que a pedra dizia. Confuso, aponto a minha cimitarra ao pescoço de Teht. Vejo o seu sangue gelar através dos seus olhos. Ver-se rodeado de estranhos a olharem com ar de poucos amigos, deixou-o imóvel. Cede-me o seu amuleto e posso constatar que as palavras aparecem e desaparecem como as areias do deserto em tempos de tempestade. Mas o estranho é que, no pescoço de Teht, formavam-se frases e não simplesmente palavras soltas... Entre ruídos da criatura e tentativas de leitura de uma pedra redonda e agora intensamente iluminada, todos começam a discutir, tamanha tempestade de areia se abatia sobre as suas mentes, ofuscando qualquer noção de lógica. Teht estava branco! Só agora vira o que se encontrava no centro da sala. "Como podem ter esta criatura aqui? Matem-na rápido! Ela vai contar tudo." diz descontroladamente. Tulfah enlouquece... parece que leu algo no amuleto que não gostou muito... e agarra Teht elevando-o no ar como se de uma pena se tratasse. "Quem é que chegou hoje pá? Quem?!" grita com o rapaz. Vejo a paralisia possuir o corpo de Teht. Mesmo que tentasse exprimir o mínimo ruído, o seu corpo recusar-se-ia a fazê-lo... é uma questão de pânico. Abdul interveio no momento certo. Tulfah solta Teht com um forte abanão... "Tás com sorte meu miserável!". Teht aproxima-se com receio... "Recebi-o à pouco tempo, nem sabia que apareciam frases nele." diz-me em segredo. Ficamos os dois a olhar para o dito amuleto. Ao contrário de Tulfah, eu sei perfeitamente o que o rapaz está a passar... ontem, eu ouvi as vozes que estão escritas naquele amuleto. Já cá estão! Mas quem?

quinta-feira, julho 12, 2007

18º Capitulo - Sem respostas

Voltamos a planear a hipotética defesa da cidade, apesar de em parte todos sabermos que é quase impossível resistir a um ataque tão devastador quanto aqueles que eram descritos nas lendas... Trata-se de dar a vida na esperança de impedir o avanço de um inimigo, sobre o qual não sabemos o que esperar. Após muita discussão, fazemos uma pausa no caos para descansar um pouco... saindo para a rua para sentir a refrescante brisa do final da tarde. Tudo parece tão calmo... mas eu sei tão bem tudo o que corre na cabeça das pessoas que passam! Sinto o medo e uma certa impassividade por parte de cada elemento desta cidade. Até as crianças estão sossegadas demais. Após uma breve pausa, voltamos para dentro para continuar a falar da defesa. Horas passam sem que se tirem conclusões concretas. Como se o cair da noite nos turvasse a mente ao mesmo tempo que o céu. Decidimos comer alguma coisa e ir para a cama. Talvez uma noite de sono nos meta a cabeça no devido lugar e, quem sabe, traga um pouco de discernimento a este tão desanimante assunto. Decido passar pelo quarto de Maria para me certificar de que estava bem... sei que estive ausente tempo demais no dia de hoje, e creio que lhe devo uma explicação. Como a noite, apresenta-se tranquila e relaxada, suavemente embalada pelo fresco que entra pela janela. Como dorme bem, tão pequena princesa! Decido deixa-la repousar... amanha falarei com ela. Deito-me ansioso! Acordo com um calafrio. Desloco-me à varanda e apercebo-me que ainda estava bastante escuro e as estrelas pouco se tinham deslocado. Olho o horizonte na esperança de encontrar a solução para os problemas que se avizinham. Coloco a mão no peito e sinto o amuleto quente... retiro-o e analiso-o calmamente. Cintila emanando uma ténue luz azul, tal estrela celestial. Dou uma mirada nas muralhas e nas ruas que se cruzam na praça. Nada vejo para além de uma ou outra luz balançante, de uma qualquer vela ou candeeiro de óleo aceso. Perscruto a minha mente em busca de alguma frase estranha como a do dia anterior. Está tudo estranhamente calmo! Volto para a cama na esperança de conseguir dormir. Quando volto a acordar, não é por iniciativa própria! Um guarda abana-me fortemente para me dar noticia da captura de um batedor inimigo. Levanto-me com um salto e visto-me à pressa. Escoltado, desço as escadas para me deparar com uma criatura cristalina e um tanto ou quanto assustadora. Fortemente amarrada, emite sons estranhos e imperceptíveis. Olhamos uns para os outros na esperança de encontrar algumas respostas... o vazio resume esta ultima noite. Sentamos-nos a observar aquela cintilante criatura. Afinal, de onde surgiram estes estranhos guerreiros?

terça-feira, abril 10, 2007

17º Capitulo - Os Caminhantes

O regresso à cidade é acompanhado pelo desaconchego de uma mente repleta de duvidas. Era claro que aquela criatura não poderia ser de origem natural. Simplesmente não existe animal algum que se assemelhe a ela. E o amuleto que trago no peito não pára de emanar calor, um calor desconfortante e agora misticamente estranho. Decido levar Teht à presença do resto do grupo. Os olhares de desconfiança não tardam em aparecer, mas a forma como Teht se apresenta não deixa margem para duvidas da sua boa vontade. Foi enviado para Cadiz para a protecção da cidade, alguns dias depois da queda da fortaleza de Gibraltar, mas aparentemente nem muitos milhares como ele a protegeriam. "Atacaram como relâmpagos... e apareciam de todos os lados. Foi impossivel!... gigantes carregados de arqueiros... os Caminhantes!" . Em toda a sua narrativa, nada havia criado temor nos corações dos meus companheiros, mas bastou Teht pronunciar a palavra "Caminhantes!" para a calma e o discernimento serem rápidamente perdidos na ampla sala. "Tais criaturas não existem!..." resmunga Tulfah... "Os tempos antigos acabaram com a queda do Génio Negro... já não existe magia como nos tempos dos nossos antepassados!... simplesmente não existe!". Os caminhantes eram algumas das criaturas mais temidas pelos rebeldes, na altura das grandes batalhas dos desertos. Gigantes bestas feitas de matéria negra, tão negro era o seu coração, capazes de transportar tropas a longas distâncias em pouco mais de um dia. Segundo se conta, podiam trazer todo um exército nas suas costas, esmagando qualquer cidade rebelde como os nossos pés calcam um qualquer pequeno e indefeso animal. Gera-se a confusão na sala... O governador deita as mãos à cabeça pronunciando uma amalgama de palavras incoerentes. Vejo a dúvida e o medo crescer rápidamente. Teht pousa a mão no meu ombro fazendo-me voltar à realidade. "Tenho de te falar de uma coisa..." sussurra ele baixo. Afastamo-nos do inacalmável grupo e Teht começa a falar. Foi enviado por Granada com a missão de ajudar na defesa de Cadiz. Furtivamente, atravessou os campos de batalha a norte de Gibraltar , acabando por chegar a Cadiz sem levantar demasiadas suspeitas. Aparentemente, o seu grupo acabou dizimado sobre o fogo intenso dos arqueiros que se encontravam nos Caminhantes, aquando da invasão de Cadiz. "Não consegui salvar ninguém... estávamos cercados e as flechas vinham de todo o lado. Foi uma sorte escapar... mas ainda não percebi como não me conseguiram acertar... Foi a graça de Alá, creio!". Lançamos uma gargalhada que provoca o silêncio no salão. Abdul olha-nos com afronta: "Nós preocupados com a cidade e as excelências a rir como doidos! É o que faz a guerra... uns morrem e outros ficam assim!" . Inocentemente, Abdul dá origem a uma gargalhada geral, um tanto ou quanto nervosa. Quem consegue compreender os designios de Alá?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

16º Capitulo - Batedor

O tempo passa devagar… demasiado devagar para quem espera! Mas a espera dá os seus frutos e transforma a mais densa névoa num pequeno véu que se torna simples de atravessar. O encadear da luz na minha vista faz-me vislumbrar algo mais no horizonte que os leves contornos dos montes cobertos de laranjeiras aqui e ali rasgados por ténues caminhos. Curioso, corro para as muralhas. Maria deixa-se ficar para trás, docemente embriagada com o caloroso abraço do sol. Já no alto, volto a percorrer o horizonte. Algo brilha no meio dos pomares… pequeno, talvez do tamanho de um homem… “Mas que raio será aquilo?” penso eu enquanto acompanho os seus movimentos por entre as árvores. Deixo a muralha com um nó de curiosidade no estômago e um escaldante latejar no peito. Sinto o amuleto quente, mas não aquecido pelo alto sol. Parece ter calor próprio… e foi aquela coisa brilhante no horizonte que o despoletou. Na cidade, todos se encontram ocupados e talvez distraídos demais para se preocuparem com aquela coisa estranha no alto do monte. Decido investigar. Perto da casa do governador falo com Abdul sobre as minhas ideias. Sedento de um pouco de ar fresco, decide vir comigo… “Mais não seja, comemos umas laranjas para adoçar a boca!” exclama com tom de gozo. Partimos a cavalo. A distância não é muita, mas uma saída a pé não seria uma atitude prudente em tempo de guerra. Cavalgamos rapidamente pelo meio dos pomares, evitando um contacto directo com o objecto brilhante. Já perto, desmontamos e prosseguimos com as cimitarras desembainhadas. Estranhos ruídos soam por entre as árvores… e o que aparentava ser apenas um objecto, é na realidade uma criatura estranha, feita de cristal negro. “Um batedor!” penso no mais profundo silêncio. Puxo a túnica de Abdul. “É um deles!”, sussurro. Recuamos para um pequeno declive e ficamos estáticos a tentar compreender o que realmente tínhamos visto. Ouvimos passos rápidos… o ardor que me queima o peito leva-me a levantar a cabeça. Vejo a criatura correr monte abaixo… “Ouviu-nos!”. Antes de conseguir proferir uma palavra que seja para alertar Abdul, oiço um leve assobiar rasgar o ar, seguido do claro som de cristal a partir. “A esta distância até num pardal acertava!”. Estamos em pleno alerta quando um jovem se deixa cair de uma laranjeira próxima. “Este não conta nada a ninguém.” ri-se enquanto guarda o seu arco curto. Teht é o seu nome, e é um dos poucos sobreviventes do ataque a Cadiz. Há dias que caminha para alertar o governador de Huelva, mas tem encontrado demasiadas criaturas para que a viagem seja breve. “Venham ver!”, exclama Teht. Puro cristal, nem carne, nem osso! “E há muitos mais por detrás daquele montes.” De quando em quando, pequenos pontos brilhantes refulgem pelas serras. Oiço Abdul engolir em seco enquanto agarra alguns restos da brilhante criatura. Mas que mais nos reserva Alá?

quinta-feira, dezembro 21, 2006

15º Capítulo - Estranhos pensamentos

Acordo exaltado. Uma pequena frase lateja na minha cabeça, como que uma réstia de sonhos macabros que não deseja sair do meu pensamento. “Chegaremos hoje…”. Lavo a cara e vejo um rosto conhecido já aos pulos na varanda. Maria aparenta estar bem alegre, brincando enquanto o sol se eleva. Visto a túnica e saio para tentar encontrar Abdul. Este encontra-se num salão outrora majestoso, actualmente transformado na sala de planeamento pelo governador. Já cá estão todos os meus companheiros de viagem, cada um ponderando e debatendo os pormenores de um possível embate. Sento-me um pouco mais afastado, comendo e tentando apagar da memória aquela frase tão curta mas perversamente perturbante. Abdul aproxima-se… Num movimento rápido atiro a sua bolsa. “Perdes-te isto?” pergunto. Abdul pára para pensar e sorri. “Não pensei voltar a ver isto… e sinceramente a ti também não!”. Fico estático. Abdul conta-me então tudo o que se passara com eles desde que nos separáramos. Porém, o que mais me intrigou foi o facto de, na sua narrativa, eu não estar com eles quando se deu o ataque. “Pensámos que eras um deles!” exclamou! Tulfah apercebe-se da conversa e aproxima-se. Olha directamente para mim e graceja desmesuradamente. Ainda estático com a cabeça às voltas e sem saber o que me tinha acontecido aquando do ataque, ouço novamente a mesma voz dos sonhos: “Preparem-se… Chegaremos Hoje…”. Tulfah dá-me uma sapatada que me faz voltar a mim. “…sim amigo… não sei o que realmente se passou mas cortava-te a goela se fosses um deles!” ri-se descontrolado. Ainda perturbado com a voz, peço desculpas e saio da sala. Já em outra sala, ouço Tulfah gritar: “Estava a brincar!... Que bicho lhe mordeu?”. Nem eu sei. Vasculho a minha mente para tentar perceber que voz é aquela. Nada… apenas o constante “chegaremos hoje”. Mas quem? Quem é que vai chegar hoje? Decido dar uma volta pela cidade para espairecer. Todos os outros se dedicam às tácticas e organização dos homens para o combate. Ainda é cedo, mas a azafama já invade as ruas. Balistas e catapultas são construídas, óleo é preparado, armas são limpas. Mulheres e crianças correm desenfreadamente para conseguir reunir o máximo de alimento possível para o que está para vir. Sinto-me vaguear. Tudo corre alucinadamente nesta cidade… tal como todas as coisas que me toldam o pensamento. Como é que eu desapareci se acordei exactamente no sítio onde me tinha deixado dormir? Como podem dizer que não estava lá? Não me terão visto? Por onde andei então, caso realmente tenha desaparecido? Sinto o familiar puxão de Maria nas minhas vestes. Pergunto-lhe como me encontrou. Para meu espanto, ri-se. “Não é muito difícil encontrar alguém à porta da casa do governador!”. E cá estou eu, estático… a poucos metros da praça principal. Nem dez metros percorridos? Por Alá… o que se passa comigo hoje?

sábado, novembro 25, 2006

14º Capítulo - Uma nova aliança

O olhar do governador torna-se grave enquanto lê a minha escrita. Na realidade, torna-se fulminante tamanha é a confusão em sua cabeça. Ao mandar chamar um guarda, ficamos em sobressalto. O facto de nos encontrarmos numa cidade não nossa, e estarmos oficialmente em guerra contra os almóadas, não nos deixa propriamente à vontade. Depois de algumas palavras o guarda abandona novamente a sala. Pouso a mão sobre a cimitarra e Maria calmamente refugia-se atrás de mim. Se houver sarilhos, teremos de sair daqui o mais rapidamente possível… o maior problema é atravessar o mar de soldados inimigos que se encontram no exterior. O governador tenta acalmar-nos. Decerto que a nossa identidade já fora descoberta, e acredito que a nossa proposta de ajuda na defesa o deve ter feito pensar bastante. Exclama: “A cidade é almóada, mas o povo sabe que os tempos dourados apenas se podem ver retratados pela pena dos poetas. Queremos a paz e a beleza de outros tempos. Considerem-nos vossos aliados contra este mal maior!” Fico em silêncio… Por momentos o espanto tolda os meus pensamentos, deixando-me ridiculamente como uma estátua sem o mínimo sopro de vida. Maria coloca-se à minha frente e sorri. “Tudo correu bem não foi?” pergunta alegremente com a sua infantil inocência. Neste momento, não tendo recuperado ainda a lucidez de espírito, entra o resto do meu grupo no palácio. O fedor que trazem é deveras insuportável. Compreendo que as catacumbas não deverão ser dos locais mais limpos da cidade, mas nunca pensei que pudessem cheirar tão mal. Tento evitar os abraços que tão calorosamente me tentam dar como forma de agradecimento. Abdul discretamente sussurra: “Temos de falar!”. Olho para ele como se não me tivesse dito nada e aceno ligeiramente com a cabeça. Há outras prioridades pela frente. Yusuf deverá ser alertado das ocorrências. Para a cidade resistir aos ataques, necessitamos de muito mais que cimitarras e flechas. Necessitamos de astúcia e estratégia. Essas duas qualidades estão mais do que reunidas no homem que nos trouxe nesta expedição. Peço por uma mesa, papel e pena, que me são prontamente disponibilizadas. Enquanto Maria repousa no meu colo, escrevo uma missiva para Yusuf, relatando tudo o que havia acontecido com o grupo. Akmer, o mais rápido batedor do grupo, pede-me que lhe conceda a honra de levar tão importante papiro. Tulfah, o “pequeno touro”, acena como sinal de aval. Estou certo que confiarão nas capacidades deste jovem. Parte imediatamente. O governador parece bem mais calmo e contente. São preparadas camas e comida para nós, dada a nossa subida do estatuto de espiões a convidados de honra. Amanhã começarão os treinos e outros preparativos para o embate. Acompanhado de Maria, dirijo-me para o quarto. Alá protegerá a cidade por mais uma noite.

quarta-feira, setembro 06, 2006

13º Capítulo - Más noticias

Olhamos as ruas à procura de feirantes menos bem dispostos… As túnicas assentam esplendidamente, mas a forma da sua aquisição é no mínimo criticável. Decido procurar mais informações com o governador. Se ele não suspeitar de quem somos, não creio que haja qualquer problema em responder a algumas perguntas. Percorremos ruas e ruelas, carregadas de gente cansada. Um burburinho enche o ar, proveniente das atarracadas casas que percorrem as ruas. Temem que depois da queda de Cadiz, a próxima a cair seja Huelva. Milhares de fragmentos de frases entram nos meus ouvidos. Porém, a junção desses mesmos fragmentos relembram-me contos de outras eras. Eras de destruição e poderosas criaturas que assolavam a minha amada Arábia. Avistamos a mesquita. Certamente que o palácio não ficará muito longe. Da pequena rua que percorremos surge uma enorme praça. Outrora majestosa e repleta de poetas, segundo descreve uma senhora, alberga agora milhares de soldados numa prontidão impressionante. Porém a sua prontidão não é de quem vá partir para a guerra, mas sim de quem está à espera que a mesma chegue. Atravessamos a praça com um ligeiro nó no estômago mas qualquer medida mais evasiva poderá denunciar-nos. Leio o terror na cara de muitos jovens que sentados no chão, vão limpando as suas armas. Não crêem na vitória pelo que me consigo aperceber. Terá a destruição de Cadiz sido assim tão grande? Poderá uma cidade cheia de soldados sucumbir tão rapidamente? Não pode ser obra de Al-Amiri e de Amir! O que quer que venha lá é decerto nosso inimigo também. À entrada do palácio o governador não aparenta calma nenhuma. O seu movimento frenético de um lado para o outro aparenta, isso sim, insanidade. Peço-lhe um pouco do seu tempo, algo que nervosamente ele dispensa. Quando lhe pergunto o que acontecera em Cadiz, o seu rosto torna-se grave e ligeiramente branco. Descreve uma história das antigas eras, aquando do aprisionamento de um talismã poderosíssimo nas grandes rochas de Gibraltar. Aparentemente, Alá aprisionou esse talismã por conter criaturas que o Homem não consegue controlar. “É negro… e negros se tornam os que o carregam!” clama o governador. Afirma que alguém o libertou e que a destruição alastra a cada dia. Teme que Huelva seja o próximo alvo. Tento compreender a gravidade da situação, apesar das minhas experiências sobrenaturais se limitarem à reza diária. Decido ajudar. Maria apresenta-se bem mais apreensiva. Quando informo o governador das nossas intenções de participar na defesa da cidade, ele ri-se loucamente. Entrego-lhe os papiros que tenho escrito. Talvez assim ele aceite a nossa ajuda. Alá trará luz a esta cidade.

sábado, agosto 26, 2006

Nota do Autor

A todos os leitores, um muito obrigado por continuarem a acompanhar esta criação. Devo-vos um pedido de desculpas pela demora entre o lançamento de artigos. Tentarei ser mais breve. Decidi dar nomes aos capítulos… digamos que “capítulo 2” não é um nome que nos remeta para o tema a tratar. Fiz também umas pequenas correcções nos textos. Desejo-vos uma boa leitura. Qualquer coisa é só comentar.

12º Capítulo - Huelva

A cidade aparenta uma decadência imunda. A grandeza das suas muralhas contrasta com a sua falta de preservação. O lixo acumula-se nos cantos sem a mínima preocupação de o limpar. Águas fétidas correm ao lado das crianças que brincam na rua. Mais uma vez consigo compreender os intuitos de Yusuf na conquista da península. Os efeitos da guerra prolongada são novamente evidentes, tanto na cidade como na sua gente. As pessoas que passam por nós aparentam um cansaço extremo. É com estas cidades fragilizadas que contamos para uma mais rápida expansão. Porém, esse assunto neste momento é apenas secundário. Temos de encontrar o resto do grupo. Percorremos a rua principal da cidade. O mercado está apinhado de gente. Maria, com o seu incomparável sorriso, faz-me uma pergunta que em todo me parece desapropriada para o momento: “Qual a tua cor preferida?”. A palavra “Azul” foi seguida de um rápido “Já venho!”. Fico estático ao ver aquela pequena miúda desaparecer na multidão. Ocorre-me que talvez não a volte a ver, mas em parte sei que aquela alma está cheia de surpresas. Vasculho a feira em busca dela mas essa mesma busca revela-se infrutífera. Encolho os ombros e sigo caminho. Uma bancada de kebab chama-me a atenção. Tenho as moedas de Abdul que poderei sempre usar. Estou certo de que não se importará. De barriga cheia, guardo outro kebab para a Maria. Se tornar a aparecer, saber-lhe-á bem. Entre os feirantes, procuro informações, ou pelo menos algo concreto a que me possa agarrar nesta busca. Na maior parte dos casos, em pouco ou nada me podem ajudar. Sinto um puxão na túnica que me é de todo familiar seguido mais uma vez de uma simples frase: “Vem… rápido!”. O alarido que provem da multidão agoira algo. Corremos loucamente pelas ruas labirínticas, até que uma pequena ruela nos servir de abrigo. Com um sorriso comprometedor, Maria estica-me uma túnica e um turbante de um azul indescritível. “É a tua cara!” exclama vigorosamente. Para ela, uma bela túnica laranja transmitia um eterno pôr-do-sol. Os olhos de Maria demonstram alegria enquanto se delicia com o kebab. Falando de boca cheia, conta-me o que ouvira no mercado sobre um grupo de homens armados, capturados esta manhã. Parece que procuram um outro soldado. Está claro que se trata do meu grupo. Segundo Maria, encontram-me na prisão aguardando interrogatório. Comenta algo sobre a destruição de Cadiz que em tudo me desperta a atenção. Consideram o meu grupo como parte do exército que esmagou essa cidade. “Talvez espiões!” afirmavam eles. Fico confuso. Não creio que sejam piedosos com soldados inimigos, e como tal, devo agir o mais depressa possível. Algo está muito mal e eu tenho de descobrir o que é. Alá dar-me-á forças para esta missão.

quinta-feira, agosto 03, 2006

11º Capítulo - Maria

A caminhada não se aparenta árdua nem interminável. A estrada percorre apenas algumas colinas antes de embater nas fortes muralhas de Huelva. Vou saboreando as laranjas que colhi enquanto me tento recordar do que aconteceu. Mas afinal o que aconteceu? Enquanto vasculho inutilmente o meu cérebro em busca de respostas, sou interrompido por um leve puxão na túnica. Ao voltar-me uma pequena rapariga esbugalha dois mares na minha direcção. As suas vestes rasgadas demonstram uma vida privada de luxos e talvez repleta de maus-tratos. Estico-lhe uma laranja… a sua reacção é nula. Encolhendo os ombros, retomo novamente a esguia estrada. Novo puxão e reencontro os mesmos olhos abertos parvamente. Desta vez, a sua pequena boca abriu-se levemente pronunciando um simples e intrigante: “eram teus amigos?”. Após uma resposta afirmativa, comecei a bombardear a rapariga com perguntas sobre o seu paradeiro. Apesar de não saber onde se encontram, afirma que os homens que os levaram eram soldados da guarda da cidade. Aparentemente a nossa chegada aqui havia sido previamente alertada. Algo voltava a não bater certo. Se partimos de Faro em relativo secretismo, como foi possível armarem-nos uma cilada tão prontamente? Menciono o acontecido pouco tempo antes enquanto dormia, procurando encontrar respostas a algumas perguntas das muitas que deambulam na minha mente. A resposta, bem distante daquela que esperava, é um sorridente “vou-te ajudar!”. Encaminhamo-nos para a cidade. Pelo caminho, falamos alegremente, em parte devido à excelente disposição de tão viva miúda. Aparentemente abandonada à nascença, Maria fugiu de um convento no norte da península. Cristã de origem, foi deambulando rumo ao sul, roubando para sobreviver, em busca de riqueza e paz. Afirma apenas ter visto os guardas levarem o resto do grupo, mas a sua alma sabe mais do que a sua boca fala. O seu infantil secretismo revela a incompreensão de algo visto. Sei que independentemente do eu seja, haverá palavras que o expliquem. Talvez ainda não se sinta inteiramente à vontade para falar nisso. Decido respeitar a sua posição, apesar de saber que vai atrasar a compreensão de muitas coisas passadas. Pouco falta andar para chegarmos à patrulha da ponte, quando lhe acabo de contar todas as minhas aventuras ao lado de Yusuf. Os seus brilhantes olhos e o sorriso rasgado demonstram admiração. Paramos a uma distância segura para combinar a melhor maneira de não levantar suspeitas. Poeta e aprendiz aparenta ser uma razoável desculpa para entrar na cidade e os papiros que trago comigo servirão de prova. Decido rasgar um pouco a roupa para que a discrepância de vestuários não seja tão evidente. Poucos minutos volvidos, e encontramo-nos frente a frente com os guardas. Ocupados com todos os homens que aparentam porte de guerreiro, deixam-nos passar sem muitas perguntas. É fácil discernir que andam à procura de alguém. Conhecendo esse alguém, agradeço pela primeira vez na vida a Alá, o facto de me terem avaliado mal.

quinta-feira, junho 15, 2006

10º Capítulo - Confusão

Mantivemo-nos em silêncio durante quase todo o caminho desde que atravessámos o belo Guadiana. Huelva sobressai no horizonte agora rasgado pela claridade que antecede o nascer do sol. Os tons alaranjados dão à paisagem uma sensação de calma, invulgar por estas paragens. Parece que a guerra não passa de algo inventado apenas para fazer esquecer a beleza do mundo. Com aprovação de todos, decidimos descansar umas horas, enquanto o sol não está alto. Os cavalos bebericam no regato que corre a pouco metros de nós, enquanto a leve brisa agita a erva onde nos sentamos. Pássaros voam alegremente, como se as batalhas já travadas naqueles campos nunca tivessem acontecido. É incrível apercebermo-nos da efemeridade dos actos humanos, de como um dia o Homem deixará de fazer parte deste cenário mas tudo o resto continuará a existir. Corre-me na mente a probabilidade de sermos o único ser vivo com a capacidade de se extinguir a ele próprio. Envolto em pensamentos, adormeço. Acordo com o sol a bater-me fortemente na cara. Com os olhos ainda embriagados de sono, busco pelos meus companheiros, mas de nada me vale. Desapareceram… e com eles os cavalos. Sinto uma forte frustração enevoar-me o raciocínio. Sento-me para pensar. Perscrutando o local onde tinha adormecido, vejo uma bolsa de couro. Num dos lados, consegue-se ler “Abdul” gravado a letras douradas. Pelo que me lembro da nossa curta viagem, Abdul é um jovem alto, rigidamente marcado pela guerra que apresentava uma profunda cicatriz no rosto, proveniente de alguma batalha antes travada. No seu interior, algumas moedas de ouro e outros pequenos pertences que jamais alguém deixaria para trás. O corrupio desenhado na erva demonstra mais gente do que aquela com quem vim. Algo se passou enquanto dormia… algo estranho, que sinceramente não consigo compreender. Estou certo de que fizeram barulho! Como foi possível não os ouvir? Estaria demasiado cansado? Se partiram sem mim, porque o fizeram? Se alguém teve aqui e os levou, porque não me levaram também? Não aparento eu ser um homem de armas? Sinto a cabeça a andar à roda com tantas perguntas sem resposta. Toco o meu amuleto procurando fugir a toda a confusão que me inunda. Vasculho a área envolvente à procura de outras pistas… mas não consigo encontrar mais nada. Toda a calma que me rodeia torna-se enervante. Até a minha cimitarra levaram! Sete moedas de prata são o único peso da minha bolsa. Após colher algumas laranjas, faço-me sozinho à estrada. Apenas Alá saberá as aventuras que me aguardam.

sexta-feira, maio 26, 2006

9º Capítulo - Caminho para Huelva

A noite aparenta ser longa e o caminho nada fácil. Como o vento, corremos velozmente por entre belos pomares e searas. Os vultos das amendoeiras acompanham-nos durante grande parte do caminho. Dada a urgência da missão, apenas podemos fazer pequenas pausas pelo caminho. Teremos tempo de descansar já em território inimigo. Do grupo, apenas um dos cavaleiros vai a meu lado, tentando manter conversa. É baixo e robusto; “Pequeno touro” é como lhe costumam chamar. Almorávida de nascimento, mas almóada de espírito, agradece-me várias vezes pelo facto de ajuda ter chegado. Segundo os seus relatos, a Península encontra-se decadente faz já uns anos. O grande reino do Grab-Al-Andaluz terminara ainda ele era criança. Com a queda do Xeque, a separação do reino em califados foi imediata. Os califas, sedentos de poder, nem o próprio sangue pouparam. “Árabes contra árabes”, conclui triste. De facto, é exactamente esse problema que assola o Al-Andaluz e que nós tentaremos explorar. O ódio entre califados aumenta de dia para dia, tanto enfraquecendo almorávidas como favorecendo cristãos. Deixando a conversa, procuro no horizonte um sinal do caminho que devemos seguir. Um reflexo amplo, mas ténue vai sobressaindo ao longe. Começamos a descansar os cavalos que já muito cavalgaram desde que partimos de Faro. A noite continua escura, mas bem estrelada. Fomos detidos pelo Guadiana; grande rio, pelo que aparenta. A única forma de o atravessar é numa barca de um veterano de guerra. Ex-combatente na grande frente leva agora uma vida pacata nas margens deste rio. Creio que não causará grandes problemas e em troca de umas moedas de ouro, estou certo que o seu silêncio e o meio de transporte serão comprados. Enquanto atravessamos calmamente o rio, vamos combinando locais para repousar. Huelva, uma cidade a pouco mais de umas horas de corcel, será o nosso primeiro local de paragem. Teremos de nos fazer passar por almorávidas, o que no fundo não é tarefa assim tão árdua. De Huelva partiremos para Cadiz, um pouco mais a sul. E com sorte, conseguiremos atingir Gibraltar ainda antes do final do segundo dia de viagem. Os pobres animais que nos carregam terão de ser trocados em ambas as cidades, de forma a não termos de fazer paragens extra. Em pouco tempo, o agradável e relaxante som da água a correr alegremente pela barca dá lugar ao rude som da areia que roça o casco. A partir daqui, apenas Alá nos poderá proteger.