terça-feira, novembro 25, 2008

22º Capitulo - Estranha pedra negra

Maria dorme profundamente após toda aquela agitação a que foi exposta. Levanto-a do cadeirão e levo-a para a pequena cama que ocupa a parede sul do quarto. Deito-a e recosto-a confortavelmente para que possa descansar em paz. Decido depositar as duas belas adagas por debaixo da sua almofada, já que não serão necessárias as palavras para me dizer o que a sua pequena boca não conseguiu proferir. Já sei que esta pequena criatura carrega nos ombros um peso muito maior do que o seu. Tem o fardo do destino para transportar... assim como eu e todos os que neste momento se encontram nesta maldita cidade. Quando abandono o seu quarto, dou de caras com dois guardas que, com toda a azafama que se passava na sala, decidiram verificar se todas as divisões da casa se encontravam sem problemas. Peço-lhes que guardem o quarto com a sua própria vida, caso seja necessário, e que deixem a Maria descansar. Os olhos de ambos estavam absorvidos pelos restos de vidro negro que estava espalhado pelo chão do quarto. Ao tentar explicar o que se havia sucedido, também os meus se prenderam com algo que se realça entre aquela amalgama de cristal: há algo mais ali... algo talhado, não partido. Aproximo-me com cautela e observo com maior atenção. É negro, reluzente como todos os restos, mas aparenta ter algo no seu interior, talvez fumo, tal bruma que nele se encontra encerrado. Decido apanha-lo. O que quer que seja, merece uma observação mais cuidada. Levanto-o contra a luz para que o meu olhar possa atravessar o seu interior. Os jovens soldados prendem-se atrás de mim tentando também ter um vislumbre daquela pedra. Sinto os meus pelos eriçarem-se como se todo eu gelasse. No peito, sinto um ardor intenso... o amuleto queima-me como nunca me havia queimado. Quando a luz exterior consegue atravessar aquela escura pedra, vejo caras... dezenas de caras na maior das agonias, como que gritando, como que pedindo ajuda. Esfumam-se e tornam a materializar-se, sempre com o mesmo ar de dor, rogando por liberdade. Sinto-me tremer. Mas afinal o que é isto? Porque trará este "Batedor" algo tão negro consigo? Será esta a alma dele, ou apenas a chama que o mantinha focado nos seus objectivos? Ouço os guardas chamar-me bem ao fundo enquanto ainda perscruto aquele objecto; depois um choque no peito e sinto-me leve... a cair. Com as forças que me restam, olho o cristal agora vazio e o peito inflamado em dor. Alá me acuda pois de nada mais me lembro.

quarta-feira, novembro 12, 2008

...Quote...

I don't need to tell you things aren't good...
Everybody knows things aren't good!
We know are air is unfit to breath and our food unfit to eat.
Young punks are running the street, no one knows just what to do, and there's no end to it.
The dollar buys a pennies worth, the banks are going under,
Coper's are keeping a gun under the counter!
We sit, watching our idiot boxes, while some local anchor man tells us that today we've had 18 murders and 80 violent crimes, as if that were the way things were suppose to be!
We know times are bad... worse than bad... people are crazy!
Is like everything, everywhere, is going utterly mad!
So we never leave out homes; we sit in our comfy abodes,
While the world is getting smaller and we say:
-"Come on! At least leave us alone in our family rooms. Let me have my microwave and flatscreen and my 20 inch wheels and I wont say anything! Just leave us alone!!"
Well, I'm not gonna leave you alone! I want you to get angry!
I don't want you to riot, I don't want you to protest,
I don't want you to write your senator because i won't know what to tell you to tell him.
I don't know what to do about the recession, and the inflation, and the crime in the street!
All I know is that you got to get mad!!!
You've got to say: -"I'm a human being dammit!!! My life has value!!!"

quarta-feira, novembro 05, 2008

Equilibrium

Muitas das pequenas escolhas que fazemos são perfeitas,
São simplesmente límpidas, certeiras e unicamente discretas.
Outras escolhas, são desmesuradamente opostas...
Muito obscuras, erróneas e totalmente marcantes.

A nossa vida faz-se de um pouco das duas,
Tal como o azeite está para o vinagre num galheteiro,
Ou o sal para a pimenta...
Separados, dão um toque subtil à vida.
Juntos, são a própria alegria de viver.

quinta-feira, outubro 23, 2008

The little devil

Awake little devil,
Come outside and play.
Stretch your wings in the sun,
Because today is the day.

Feel the lust in you face,
The monotony of people in your hand.
Have a bite in some sinners,
Be the owner of some land.

Such a tiny little creature,
Pretty ugly I must say.
Burn this world in a minute,
Be the one to affray.

sábado, outubro 11, 2008

Mudança...

Por vezes é estranho sentir a mudança...
Ver que temos de cortar com as raízes,
Que temos de partir para saber se a relva é realmente mais verde do outro lado.
Deixar os tempos de criança,
De rapaz e de adolescente em cima da mesa...
E vestir a pele do adulto que nos fomos tornando ao longo de tanto tempo.
No fundo somos como pequenas e enfadonhas lagartas
E vamos crescendo, crescendo, crescendo...
Para um dia nos podermos metamorfosear e ter asas para voar.
E o mais incrível é que quando olhamos para trás,
Com a melancolia de quem perde algo querido,
Sabemos que tudo faz parte...
E que é apenas a nossa vez de descobrir o mundo.

terça-feira, outubro 07, 2008

Death's Journal...

Days become darker...
The age of glory has long gone in this doomed world,
And the remnants of Humanity still stumble outside.
Scarfaced... dismembered... poisoned with lies.
Plants got tired, they simply decided not to grow anymore,
Condemning each and every breathing creature to a certain and sofucating death.
A few privileged have fled some time ago...
To a new Earth, they said, where they can start all over again.
I believe it's just a matter of time until they doom that other planet too.
It's just part of Human nature...
To destroy in seconds what took eons to build.
And I know I'll be there to witness its fall!

But for now... I'll walk alone,
Just wondering as days become darker...

domingo, outubro 05, 2008

Blur...

Por muito que se procure,
Por muito que se caminhe,
Não será ao alcance da vista,
Nem no alto daquela montanha...

Que encontrarás a felicidade.

Por muito dinheiro que se tenha,
Por muito grande que seja o teu império,
Não será com a riqueza,
Nem com um gigantesco exército...

Que terás a felicidade.

Por muitos livros que leias,
Por muito que te isoles para pensar,
Não será escrito nas letras,
Nem na mais profunda meditação...

Que saberás qual o significado da felicidade.

Porque ela não é palpável,
Não é adquirível,
É inimaginável...

É, pura e simplesmente, feita por ti!

terça-feira, setembro 09, 2008

Acordar

Acorda meu caro amigo...
Vem sentir o toque do vento,
Que dá tamanho alento,
A quem vagueia sem abrigo.

Acorda rápido jovem camarada...
Vem, juntos lutaremos lado a lado,
Não mais viveremos neste estado,
De quem olha em volta e não vê nada.

Salta da cama molengão...
Tanto tempo perdes e nada fazes,
Com o tédio à muito fizestes as pazes,
Tornaste-te escravo da tentação.

Acorda!!!

sexta-feira, agosto 22, 2008

Overseer

Gosto de ver, de observar…
De sentir o ar acariciar-me o rosto.
Gosto de ver toda a gente passar,
E seguir no sentido oposto.

Prefiro ficar a um canto,
Ver de longe, invisível.
Ler até onde vai o encanto,
Do povo que passa, insensível.

Gosto de pensar sozinho,
Ir longe por um momento.
E quando volto, adivinho…
Sei qual é o teu tormento.

I am the Overseer!

Coisas

Não me lembro de escrever,
De sentir a mente fluir livremente.
Tenho-me ofuscado com ideias loucas,
Sentimentos tristes que me ferem…
Que esmagam os meus pensamentos.
Luto por ser mais um perfeito,
Por ser mais um exemplo,
Por um amar melhor que o dos outros.
E no fundo,
Quando paro para respirar,
Sou apenas mais um a lutar,
A combater o dia-a-dia com alento.
Para um dia de manhã poder acordar e dizer…
Creio que afinal valeu a pena!

domingo, agosto 17, 2008

21º Capitulo - O segredo de Maria

Instala-se o nervosismo entre os presentes. É atroz a forma como o inimigo mina as relações que, por ténues que sejam, apresentam os mesmos objectivos. No meio de tanta berraria sinto o peito a arder. Sei que a criatura não foi longe... posso senti-la perto... bem perto. O latejar do amuleto que trago no peito torna-se mais intenso. Maria! Creio que Maria ainda se encontre no quarto e o facto daquele "Batedor" estar à solta não me deixa minimamente confortável. Enquanto os soldados se encarregam de libertar as suas frustrações, numa acesa troca de palavras e insultos agora mediados pelo governador, decido ir investigar o andar de cima. Para além de uma agradável brisa que desce pelas escadas, nada aparenta estar mal... Pouco mais acima, começo a ouvir um som abafado de alguém que tenta gritar e não consegue. Apenas um pensamento me ocorre: "Apanhou a Maria!". Corro direito ao seu quarto, com a cimitarra desembainhada. A sua porta está bloqueada. Em força, tento abri-la, desesperadamente. Os sangue flui-me pelo corpo a uma velocidade vertiginosa. Sinto-me carregado... e explodo com um golpe tenso e frio na porta que me separa do que que agora me parece ser uma intensa luta. Pedaços de porta são projectados em todas as direcções, tal raio que a atravessara. No interior do compartimento, Maria tenta libertar-se do Batedor que havíamos capturado. Aproximo-me cautelosamente, não querendo que o monstro se sinta tentado a fazer-lhe mal. O que parecia ser uma pequena brisa, que corria desde a janela aberta, é agora uma ávida corrente de ar que me leva a semicerrar os olhos. Oiço o som de vidro a quebrar e no local onde se debatiam duas das criaturas mais misteriosas que conheço, sobra apenas uma delas e um amontoado de vidro, negro... vazio. Maria transpira fortemente... a sua fronte demonstra um cansaço extremo, de quem se debateu arduamente com a morte. Amparo-a e peço-lhe para se sentar. Da sua boca, um "Tenho algo para te dizer..." parece-me longínquo e ofegante. O som de metal a bater no chão do quarto termina-lhe a frase, enquanto a sua cabeça descai para o encosto do cadeirão. Decido deixa-la a descansar enquanto investigo o som que ouvi. No chão, as mais belas laminas preenchem duas adagas nobremente trabalhadas. Creio que foi com elas que Maria se livrou do Batedor... mas porque estaria ela com armas destas? Decido guardar as adagas comigo. Estou certo que Alá me dará as respostas brevemente.

terça-feira, agosto 05, 2008

Neve

Afiada como uma lança,
Talvez pena, de tão leve,
Os espíritos irados amansa,
E a alguém, nada deve.

Até onde a minha vista alcança,
Por um momento deveras breve,
Continuais com a vossa dança,
Fria e branca, sois neve.

sábado, junho 14, 2008

Hail to Richard

Hehe... como já devem ter reparado, há uma nova contratação para este blog. Amigo à bastante tempo, e instruído na nobre arte da escrita, esta nova aquisição certamente irá dar mais vida a este enfadado lugar.

Espero que a sua escrita vos cative como me cativou a mim.

Cumprimentos

Shuri Kata

A quem já não está...

Sente o vento mudar,
O desabrochar...
O abrir do momento.
Sente o pranto no ar,
Por alguém que se foi,
Tamanho tormento.

Vê quantos amigos a chegar,
Quantos deles imemoriais,
Outrora perdidos no tempo.
E quantos conseguem apoiar,
Na mais íngreme miséria,
Dar a quem sofre algum alento?

São tristes sentimentos,
Um quanto de dor...
Tamanha amargura.
Ou seremos nós lentos,
Em compreender a vida,
Que pouco ou nada dura?

sábado, janeiro 26, 2008

20º Capitulo - Antigas inimizades

Todos se apresentam assombrados com o número de eventos que Alá tem reservado para nós, simples homens. Decidi sair da casa do governador, e apanhar um pouco de ar para aclarar as ideias. No fundo, a ideia de que aquelas cristalinas criaturas podem atacar a qualquer momento deixa-me irrequieto. Já na rua, sinto ondas de calor fluir pelo meu corpo, como se no meu inconsciente soubesse que algo de muito mau está a caminho. Respiro fundo e tento acalmar-me. Abdul também não se encontra muito descontraído. Vejo-o a desenhar algo sobre algumas folhas de pergaminho... muralhas, tropas... Creio que a sua presença no exterior seja reflexo da mesma ansiedade que me assola. O pequeno exército, que deverá proteger esta cidade, está cautelosamente colocado nas suas altas e sujas muralhas, aguardando. Sinto que, de certo modo, grande parte dos jovens que se encontram lá no alto, desejam que a paz e o conforto regresse à sua terra... mas temo que ainda irão passar por duras provações antes dos seus sonhos se concretizarem. Sinto o sol bater-me na cara como uma bênção... um pequeno sinal de que Alá está connosco. Rasteio as muralhas à procura de algo que evidencie problemas, mas os problemas encontram-se mais perto do que previra. Tulfah grita a plenos pulmões com Teht. “Onde é que ele foi?! Procura-o na tua pedra! Ou isso só permite que fales com eles, meu miserável?!” A confusão estava gerada no interior da casa do governador. Abdul e eu entreolhamo-nos e decidimos acudir àquela gritaria. Quando entramos, qual é o nosso espanto ao ver que a criatura, que teoricamente estava tão bem amarrada, simplesmente desapareceu. Do outro lado da sala, Tulfah e Teht empurravam-se violentamente, enquanto o governador tentava desesperadamente separar os dois sem ser agredido. Não creio que seja possível alguém, ou criatura alguma, escapar a tamanha prisão. “E ninguém viu como a criatura desapareceu?” pergunto inocentemente. A briga cessa, mas as acusações começaram de imediato. “Foi este miserável... tenho a certeza. Eles falam com ele através daquela pedra. Nunca se deve confiar num almoada!” grita Tulfah. Teht está claramente furioso... ouço-o pronunciar palavras iradas enquanto se afasta. Mais uma astuta jogada do inimigo. Como se atrevem a brincar com a nossa mente...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Mudança de mãos...

Boas pessoal... queria apenas informar que acabei de adquirir este blog a mim mesmo. Tenho de dinamizar isto porque me parece que o jovem nis_latromi andava um bocadinho em baixo de forma.

A narrativa vai continuar, porém pontilhada com um pouco de outras coisas... isto de direccionar o conteúdo dos blogs não dá com nada.

Saudações aos resistentes

Shurikata

domingo, outubro 14, 2007

19º Capitulo - Chegada

O som emanado pela estranha criatura assombra a mente de todos os presentes na sala... grunhidos repetitivos que nos alertam para algo... mas para o quê? Teht entra na sala de sobressalto. Eufórico, nem se apercebe da criatura que se encontra na sala, tão embrenhado estava no seu amuleto. "Vejam, vejam!!!" exclamava enquanto o rodava. Depois de tantas horas de volta de uma criatura que emitia sons vindos de um outro mundo, procurámos algum consolo naquela pequena pedra que Teht carregava com ele. "Por Alá!" gritou Abdul quando arcaicamente conseguiu ler o que a pedra dizia. Confuso, aponto a minha cimitarra ao pescoço de Teht. Vejo o seu sangue gelar através dos seus olhos. Ver-se rodeado de estranhos a olharem com ar de poucos amigos, deixou-o imóvel. Cede-me o seu amuleto e posso constatar que as palavras aparecem e desaparecem como as areias do deserto em tempos de tempestade. Mas o estranho é que, no pescoço de Teht, formavam-se frases e não simplesmente palavras soltas... Entre ruídos da criatura e tentativas de leitura de uma pedra redonda e agora intensamente iluminada, todos começam a discutir, tamanha tempestade de areia se abatia sobre as suas mentes, ofuscando qualquer noção de lógica. Teht estava branco! Só agora vira o que se encontrava no centro da sala. "Como podem ter esta criatura aqui? Matem-na rápido! Ela vai contar tudo." diz descontroladamente. Tulfah enlouquece... parece que leu algo no amuleto que não gostou muito... e agarra Teht elevando-o no ar como se de uma pena se tratasse. "Quem é que chegou hoje pá? Quem?!" grita com o rapaz. Vejo a paralisia possuir o corpo de Teht. Mesmo que tentasse exprimir o mínimo ruído, o seu corpo recusar-se-ia a fazê-lo... é uma questão de pânico. Abdul interveio no momento certo. Tulfah solta Teht com um forte abanão... "Tás com sorte meu miserável!". Teht aproxima-se com receio... "Recebi-o à pouco tempo, nem sabia que apareciam frases nele." diz-me em segredo. Ficamos os dois a olhar para o dito amuleto. Ao contrário de Tulfah, eu sei perfeitamente o que o rapaz está a passar... ontem, eu ouvi as vozes que estão escritas naquele amuleto. Já cá estão! Mas quem?

quinta-feira, julho 12, 2007

18º Capitulo - Sem respostas

Voltamos a planear a hipotética defesa da cidade, apesar de em parte todos sabermos que é quase impossível resistir a um ataque tão devastador quanto aqueles que eram descritos nas lendas... Trata-se de dar a vida na esperança de impedir o avanço de um inimigo, sobre o qual não sabemos o que esperar. Após muita discussão, fazemos uma pausa no caos para descansar um pouco... saindo para a rua para sentir a refrescante brisa do final da tarde. Tudo parece tão calmo... mas eu sei tão bem tudo o que corre na cabeça das pessoas que passam! Sinto o medo e uma certa impassividade por parte de cada elemento desta cidade. Até as crianças estão sossegadas demais. Após uma breve pausa, voltamos para dentro para continuar a falar da defesa. Horas passam sem que se tirem conclusões concretas. Como se o cair da noite nos turvasse a mente ao mesmo tempo que o céu. Decidimos comer alguma coisa e ir para a cama. Talvez uma noite de sono nos meta a cabeça no devido lugar e, quem sabe, traga um pouco de discernimento a este tão desanimante assunto. Decido passar pelo quarto de Maria para me certificar de que estava bem... sei que estive ausente tempo demais no dia de hoje, e creio que lhe devo uma explicação. Como a noite, apresenta-se tranquila e relaxada, suavemente embalada pelo fresco que entra pela janela. Como dorme bem, tão pequena princesa! Decido deixa-la repousar... amanha falarei com ela. Deito-me ansioso! Acordo com um calafrio. Desloco-me à varanda e apercebo-me que ainda estava bastante escuro e as estrelas pouco se tinham deslocado. Olho o horizonte na esperança de encontrar a solução para os problemas que se avizinham. Coloco a mão no peito e sinto o amuleto quente... retiro-o e analiso-o calmamente. Cintila emanando uma ténue luz azul, tal estrela celestial. Dou uma mirada nas muralhas e nas ruas que se cruzam na praça. Nada vejo para além de uma ou outra luz balançante, de uma qualquer vela ou candeeiro de óleo aceso. Perscruto a minha mente em busca de alguma frase estranha como a do dia anterior. Está tudo estranhamente calmo! Volto para a cama na esperança de conseguir dormir. Quando volto a acordar, não é por iniciativa própria! Um guarda abana-me fortemente para me dar noticia da captura de um batedor inimigo. Levanto-me com um salto e visto-me à pressa. Escoltado, desço as escadas para me deparar com uma criatura cristalina e um tanto ou quanto assustadora. Fortemente amarrada, emite sons estranhos e imperceptíveis. Olhamos uns para os outros na esperança de encontrar algumas respostas... o vazio resume esta ultima noite. Sentamos-nos a observar aquela cintilante criatura. Afinal, de onde surgiram estes estranhos guerreiros?

terça-feira, abril 10, 2007

17º Capitulo - Os Caminhantes

O regresso à cidade é acompanhado pelo desaconchego de uma mente repleta de duvidas. Era claro que aquela criatura não poderia ser de origem natural. Simplesmente não existe animal algum que se assemelhe a ela. E o amuleto que trago no peito não pára de emanar calor, um calor desconfortante e agora misticamente estranho. Decido levar Teht à presença do resto do grupo. Os olhares de desconfiança não tardam em aparecer, mas a forma como Teht se apresenta não deixa margem para duvidas da sua boa vontade. Foi enviado para Cadiz para a protecção da cidade, alguns dias depois da queda da fortaleza de Gibraltar, mas aparentemente nem muitos milhares como ele a protegeriam. "Atacaram como relâmpagos... e apareciam de todos os lados. Foi impossivel!... gigantes carregados de arqueiros... os Caminhantes!" . Em toda a sua narrativa, nada havia criado temor nos corações dos meus companheiros, mas bastou Teht pronunciar a palavra "Caminhantes!" para a calma e o discernimento serem rápidamente perdidos na ampla sala. "Tais criaturas não existem!..." resmunga Tulfah... "Os tempos antigos acabaram com a queda do Génio Negro... já não existe magia como nos tempos dos nossos antepassados!... simplesmente não existe!". Os caminhantes eram algumas das criaturas mais temidas pelos rebeldes, na altura das grandes batalhas dos desertos. Gigantes bestas feitas de matéria negra, tão negro era o seu coração, capazes de transportar tropas a longas distâncias em pouco mais de um dia. Segundo se conta, podiam trazer todo um exército nas suas costas, esmagando qualquer cidade rebelde como os nossos pés calcam um qualquer pequeno e indefeso animal. Gera-se a confusão na sala... O governador deita as mãos à cabeça pronunciando uma amalgama de palavras incoerentes. Vejo a dúvida e o medo crescer rápidamente. Teht pousa a mão no meu ombro fazendo-me voltar à realidade. "Tenho de te falar de uma coisa..." sussurra ele baixo. Afastamo-nos do inacalmável grupo e Teht começa a falar. Foi enviado por Granada com a missão de ajudar na defesa de Cadiz. Furtivamente, atravessou os campos de batalha a norte de Gibraltar , acabando por chegar a Cadiz sem levantar demasiadas suspeitas. Aparentemente, o seu grupo acabou dizimado sobre o fogo intenso dos arqueiros que se encontravam nos Caminhantes, aquando da invasão de Cadiz. "Não consegui salvar ninguém... estávamos cercados e as flechas vinham de todo o lado. Foi uma sorte escapar... mas ainda não percebi como não me conseguiram acertar... Foi a graça de Alá, creio!". Lançamos uma gargalhada que provoca o silêncio no salão. Abdul olha-nos com afronta: "Nós preocupados com a cidade e as excelências a rir como doidos! É o que faz a guerra... uns morrem e outros ficam assim!" . Inocentemente, Abdul dá origem a uma gargalhada geral, um tanto ou quanto nervosa. Quem consegue compreender os designios de Alá?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

16º Capitulo - Batedor

O tempo passa devagar… demasiado devagar para quem espera! Mas a espera dá os seus frutos e transforma a mais densa névoa num pequeno véu que se torna simples de atravessar. O encadear da luz na minha vista faz-me vislumbrar algo mais no horizonte que os leves contornos dos montes cobertos de laranjeiras aqui e ali rasgados por ténues caminhos. Curioso, corro para as muralhas. Maria deixa-se ficar para trás, docemente embriagada com o caloroso abraço do sol. Já no alto, volto a percorrer o horizonte. Algo brilha no meio dos pomares… pequeno, talvez do tamanho de um homem… “Mas que raio será aquilo?” penso eu enquanto acompanho os seus movimentos por entre as árvores. Deixo a muralha com um nó de curiosidade no estômago e um escaldante latejar no peito. Sinto o amuleto quente, mas não aquecido pelo alto sol. Parece ter calor próprio… e foi aquela coisa brilhante no horizonte que o despoletou. Na cidade, todos se encontram ocupados e talvez distraídos demais para se preocuparem com aquela coisa estranha no alto do monte. Decido investigar. Perto da casa do governador falo com Abdul sobre as minhas ideias. Sedento de um pouco de ar fresco, decide vir comigo… “Mais não seja, comemos umas laranjas para adoçar a boca!” exclama com tom de gozo. Partimos a cavalo. A distância não é muita, mas uma saída a pé não seria uma atitude prudente em tempo de guerra. Cavalgamos rapidamente pelo meio dos pomares, evitando um contacto directo com o objecto brilhante. Já perto, desmontamos e prosseguimos com as cimitarras desembainhadas. Estranhos ruídos soam por entre as árvores… e o que aparentava ser apenas um objecto, é na realidade uma criatura estranha, feita de cristal negro. “Um batedor!” penso no mais profundo silêncio. Puxo a túnica de Abdul. “É um deles!”, sussurro. Recuamos para um pequeno declive e ficamos estáticos a tentar compreender o que realmente tínhamos visto. Ouvimos passos rápidos… o ardor que me queima o peito leva-me a levantar a cabeça. Vejo a criatura correr monte abaixo… “Ouviu-nos!”. Antes de conseguir proferir uma palavra que seja para alertar Abdul, oiço um leve assobiar rasgar o ar, seguido do claro som de cristal a partir. “A esta distância até num pardal acertava!”. Estamos em pleno alerta quando um jovem se deixa cair de uma laranjeira próxima. “Este não conta nada a ninguém.” ri-se enquanto guarda o seu arco curto. Teht é o seu nome, e é um dos poucos sobreviventes do ataque a Cadiz. Há dias que caminha para alertar o governador de Huelva, mas tem encontrado demasiadas criaturas para que a viagem seja breve. “Venham ver!”, exclama Teht. Puro cristal, nem carne, nem osso! “E há muitos mais por detrás daquele montes.” De quando em quando, pequenos pontos brilhantes refulgem pelas serras. Oiço Abdul engolir em seco enquanto agarra alguns restos da brilhante criatura. Mas que mais nos reserva Alá?